quarta-feira, 28 de junho de 2017

e chama mãe de novo

Todo novo momento de ser maaae, mae - e chama mae de novo -
eu penso ..uma só vez.
um dia só de nao sei o quê mais ser
para nao ser sempre a mae. Nao
que me importe em ser porto,
diário, de carga e descarga
da criança que nao sabe se limpar
e da que sabe também.
suando eu saio do banho apressado
acompanho a chamada, o choro a risada
me pergunto sorrindo riso chocado
é tudo só por mim? o choro é por mim?
tamanha espera
de mim?
embora sei que nao,
nem sei se terei aquele abraço. aquele pente de cabelo perdido.
aquela figurinha de chiclete largada em um canto qualquer.
 E nao sei se terei aquele almoço. Se tomarei onibus até a escola ou até o trabalho
Nao sei se será hoje a demissão previamente sentida.
Nao sei se hoje o nó acorda dando corda ao desgosto.
 Nao sei se hoje cai a conta ou a máscara.
sei que em um momento irrompe uma fresta no silencio das tormentas
dizendo
maaae minha blusa?

tudo

Antes eu achava que nem tudo dava pra ser dito.

E achando assim o nem tudo acabou virando quase tudo. 
E eu achava que nao dizia quase tudo porque para cada tudo que eu pensava, grande parte ficava parada numa poça qualquer, em algum canto da garganta.
Daí comecei a dizer uns tudo por aí. 
Um tudo aqui, outro ali.
E como guardei muitos, achei que eles deviam ser ditos do jeito que melhor mostrasse o quanto são uma parte de mim.

Afinal, o que é o todo sem o eu mesma? entao quanto mais tudos eu partilhava, mais toda de mim eu era.

E muitos tudos foram quase todos para as mesmas pessoas de sempre. Entao eu vi que tenho pelo menos duas categorias de tudo.

No primeiro grupo de tudo cabem as pessoas que ouvem os tudos que eu realmente de fato nao diria se nao fossem eles reais e queridos ouvintes de mim. Pra eles eu digo solenemente tudo. Chamarei estes de Iguais.

No segundo, que quase sempre são as mesmas pessoas ouvindo tudo de novo, um monte de tudos que eu insistia em acreditar ainda nao ter dito o suficiente. Aqui e ali sempre falta um tudo a ser dito. Para eles eu despejo tudo. Não tem nome pra essa categoria. Entao chamarei estes de Outros.

Os iguais merecem a solenidade do meu tudo. 
Os outros merecem ouvir um tudo em forma de despacho. Normalmente dizemos que não nos importamos com esses, que são os outros, mas eles nos irritam, entao estamos sempre lhes dizendo alguma coisa.

Para os primeiros tudo é empatia e amor. Para os segundos eu lacro neles tudo.



Hoje eu já acho que nem tudo serve para ser dito.

 Dizer solenemente para os iguais o mesmo tudo de novo, já nao me esconde mais o tudo que eu nao sei dizer porque não vivi.

E nem me esconde dos outros.  Os outros também falam, e insistem em me dizer - seja solenemente, seja lacradoramente de ouvidos tampados -  a enorme quantidade de tudo o que lhes vem na telha, baseado numa montanha de tudos racionais construídos entre seus iguais.

Ouvir forçadamente o seu tudo e forçar você a ouvir o meu tudo parece mostrar quanto falta do outro em mim, e eu em você, nisso que chamamos de escolha. Fingimos que é uma escolha do outro ouvir. Escolha porque falou. Escolha porque ficou. Escolha porque nos dói admitir que nossa dor é nossa e portanto por vezes individual a ponto de a dor que eu causo no outro não justificá-la. Chamamos escolha porque não vemos no outro capacidade de dor diante de nossa fala necessária, e escuta fingida.

Eu ouço bravatas chamadas solenemente de 'não aguento mais nao dizer tudo' e somente penso: com quantos tudos se mascara o interesse só na própria individualidade? 
E quantos tudos por aí que poderiam ser ditos se a escuta não fosse fingida?
Quantos deixam de ser formulados diante desse básico cuidado com o outro,  básico medo do outro.. 

Como agir diante do outro que fala autorizadamente do local que é não se ver como igual?

Aquele sapo na garganta seria mesmo o tudo que precisa ser dito ou seria parte de um ego que nao sabe se calar?  Um eu que nao entende o limite do seu nada. Um eu que se acha por demais dono de tudo. Dono daquilo que acredita? 
Dono de estudos? 
Dono de páginas de livros lida? 
Dono da verdade daquilo tudo parado na garganta?
Todos nós donos, em posse da fé de que o que sabemos é nosso, o que vivemos é nosso, e quem tem que nos ouvir é os outros.
Nao escrevo em defesa da nao fala. Em favor de que uns tudos aí caiam amargos em longos silêncios e espera. Nem poderia, se quisesse.

Escrevo pela falta de voz que é ouvir em silêncio sofrimentos causados por um eu que se acha tudo e insiste que só há o outro como culpa ou escuta.
Quando o outro é um nada a ser ouvido em meio de seu tudo, o seu tudo não tem no outro o seu maior problema.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

As várias faces de nossa prática

Das relações

Talvez até entendemos que a complexidade das relações afetivas são atravessadas por relações de poder, as quais é importante conhecermos as suas formas e táticas.
Também entendemos que quando descrevemos e narramos o que nos passou, estamos dando forma e discursos sobre essas estratégias de poder ao qual tentamos escapar. Ou seja, resistimos e, para resistir, precisamos nomear e entender aquilo contra o qual resistimos. Como consequência, acabamos também construindo discursos sobre nós mesmo que antes não havia. Daí acreditamos que nós somos a resistência já que estamos construindo outras possibilidades.
Sim, molieres, somos “a resistência”. Nessa sociedade, ao menos. Mas, o que estamos criando é somente resistência?      
 Por vezes, em nossos próprios discursos que se propõem a resistir e encontrar novas possibilidades às mulheres - principalmente às negras que necessitam de uma dupla resistência - não estaríamos reafirmando as táticas e estratégias de poder que estamos combatendo?
Em outras palavras, nós, que já somos mulheres “feministas”, críticas, pesquisadoras, não estamos reafirmando discursos patriarcais sob a pele da sororidade que nos permite, em nossos coletivos e pequenos grupos, silenciar outras mulheres também críticas e pesquisadoras? Fogo amigo? O quanto as ouvimos a partir do momento que não as consideramos emancipadas o suficiente? Lacradoras o suficiente?
Embora a medida e régua da suficiência não esteja dada, não conseguiríamos nós nos autocriticar e enxergar que nossas escolhas, nossos grupos, nossas exclusões se dão por uma silenciosa medida da suficiência?
Nossa militância por vezes esconde as mesmas táticas prescritivas para a vida de nossas irmãs quanto o patriarcado para homens e mulheres: em nossa prática, abordamos o feminismo e o não-feminismo das companheiras a partir das relações interpessoais que essas mulheres estabelecem. Enfim, é o que temos. Quem é você em meio ao caos? e assim pedimos as identidades. Curtimos mil vezes seus posts lacradores como a própria voz da resistência ecoando em frente ao espelho. E para as outras nos damos ao direito de por na balança as gramas das práticas e discursos alheios para saber: é feminista ou não essa mina dita feminista?
E não quero simplesmente problematizar se é certo ou não essa necessidade de medir. Acredito ser mais interessante analisar as consequências positivas e negativas disto para uma luta pautada em novas subjetividades para nós, mulheres. Até onde conseguimos caminhar com nossas réguas? Em que momento ela nos fortalece e em que momento expõe nossas mazelas?
Corremos o risco, implícito, de nos limitar. Vamos pensar, por exemplo, que não há nesse texto nada de útil. Afinal, neste momento de poucas conquistas e muitas perdas, apontar falta de estratégias - tanto coletivas quanto individuais - nessas que são a linha de frente das vozes nas redes sociais, nessas que estão em nossas páginas no face, nos relatos fervorosos de nossas irmãs, nos encontros em que podemos ser amigas por aquilo que temos de comum em nossa resistência, nos nossos textos e palestras, nos nossos saraus e peças realmente parece um desserviço. Considerando que temos essas páginas, peças, saraus, pessoas e afins constantemente atacadas, considerando que esses espaços são constantemente cerceados, não seria esse o momento propício, para nos voltarmos a uma autocrítica? Esse momento em que somos resistência àquilo que nos molda, a esse cerceamento externo e conservador, não seria também o momento para reconhecermos as limitações internas que fazemos à nossa liberdade de recriarmos constantemente a nossa identidade? Não temos o caldo para repensarmos aquilo que queremos e o modo como criamos esse querer?
Pensar o quanto nossa prática pode reafirmar o que queremos romper também contribui para as demandas básicas e gritantes, como a manutenção dos direitos básicos. A crítica a si também é necessária à luta por uma subjetividade que rompa com as formas afetivas destinadas a mulher. Aqui é o que me interessa, porque é onde mora o risco da prescrição: não só reformulamos a nós mesmas com as narrativas e experiências umas das outras, como, neste processo, visando nos ajudar mutuamente, apontamos para nossas irmãs a perpetuação de certos discursos e práticas que tem efeitos machistas.
Sem dúvida, apontar é necessário. Porém, a construção desse apontamento para a outra, o modo como isso será realizado, também é parte tanto do processo final dessa luta, quanto o meio pelo qual faremos tal luta. E daí a autocrítica necessária de nossas formas. Daí onde mais vejo o silencioso olhar buscando medir a suficiência ou não do feminismo alheio. Aqui onde colamos as identidades que viram nossas referências e as que escolhemos negar em todos os aspectos. Aqui que não entendemos que não precisamos assumir atitudes prescritivas para sermos feministas.
Aqui onde não dizemos isso a nossas “personalidades” feministas de referência. Aqui onde dizer muito ou não dizer nunca nada compromete como olharão a nossa régua feminista. A tal subjetividade acima mencionada, mesmo se for conquistada, não é um fim em si mesma, senão um processo constante. Pensemos o quão político e dotado de relações de poder também são os dedos que apontamos a nossas irmãs.

Do levante à desculpa

Indo mais além, vamos pensar um pouco sobre o nosso discurso sobre nós mesmas quando estamos no fundo do poço. Nós que nos vemos feministas. O feminismo está aí nesse momento, te possibilitando entender que você é composta por muitas estruturas sociais, inclusive estas estruturas compõem o que sente e a maneira como sente. O feminismo ajuda-nos a atenuar ou mesmo abolir nossa sensação de culpa: culpa na maternidade, culpa na sociedade, culpa na violência, culpa por não sermos estéticas ou femininas o suficientes, enfim, culpas para a mulher há infinitas.
Em um outro extremo, o feminismo não é um conceito-chave para justificarmos a nós mesmas a impossibilidade de sermos autoras, a incapacidade de reformular a si mesmas e a inércia do nosso corpo dentro das estruturas que, emancipadamente, reconhecemos e nela atuamos. Isso não é dizer que temos de nos tornar heroínas, e sim que, a partir do momento em que optamos em seguir vivendo, não o façamos por mera obrigação com os filhos, ou com a sociedade. O feminismo - e todas suas intersecções - é uma ferramenta que nos permite pensar quais as formas de resistência possíveis para a nossa vida. Afinal, somos feministas para transformar. Senão ainda esse mundo, talvez a nós mesmas, juntamente com nossas parceiras e parceiros.
Por vezes nem notamos, mas anulamos a nossa possibilidade de ser autoras em nossas relações afetivas – sejam as atuais ou as ex relações que, por algum pacto social ainda temos que manter -. Anulamos e reconhecemos o machismo como culpado, sem nos darmos conta de que ao esterilizarmos nossa ação somos machistas também. Claro que nossa autoria perpassa resistências e transgressões que, por vezes, não conseguimos transpor, mas as estratégias de transposição não deixam de ser resistência.
Não somos dois lados da mesma moeda: um lado autora da própria vida, outro não; um lado que tem carteirinha com a verdade feminista; outro errando porque filosofa demais e acaba relativizando tudo. Somos um punhado de experiências que nem sempre estabelecem uma narrativa uniforme que vai de vítima a vítima, de vítima a heroína, de heroína a vítima, de parceira de luta a vilã ou outras combinações. Dentro do mesmo acontecimento, por vezes somos também a autora, a violência, a consequência, o estrago, a dor e o reconhecimento de que algo precisa ser transformado. O feminismo não surgiu para anular nossas práticas, torna-las estéreis e protegidas sobre uma película - confortável e desconfortável ao mesmo tempo – do discurso.
E aqui, por favor, sejamos críticas e não hipócritas. Falo a nós, que fazemos a crítica, diante da nossa prática entre nós mesmas e para nós mesmas. O feminismo nos torna autoras, a ponto inclusive de nos permitir enxergar a estrutura do qual fazemos parte, e possibilitar certas resistências dentro do patriarcado que, a longo e a curto prazo, depende muito mais da nossa capacidade articulativa do que o bom senso masculino de reconhecer seus erros.

Da diferença entre nós x a outra

Fazemos um duplo movimento reconfortante em nossa “militância amiga”: identificamos quem são as outras  - as que não estão com a gente - porque isso ajuda a identificar o quanto parceiras somos nós entre nós. E mantemos a discussão no nível das mancadas alheias, protegendo assim a capacidade de reconhecer que também erramos. Somos violentadas e violentas. E a nossa violência se volta mil vezes mais contra nós mesmas, a ponto de nos cegar que um dia o fomos ou ainda o somos, que temos parte nisso tudo, incluindo o machismo. Anulamos e infantilizamos a autoria das nossas irmãs enquanto contraditoriamente vemos as “outras” como autoras, cuja justificativa ou é egoísmo ou ignorância desmedidas.
De nós para nós: por vezes estamos entre nossos pares e, para ajudar, analisamos suas vidas afetivas. Conhecemos e partimos, por vezes, de um conjunto de premissas anteriores ao contexto que elas nos trazem. Ou seja, transformamos o acontecimento afetivo, (seja ele um casamento, um namoro, uma ficada, um fim ou começo de um) em um conjunto de frases que podem ou não ser encaixadas aqui e ali. Enquadramos a história e relação afetiva de nossas irmãs para conseguir entender e então, opinar. Partimos dessas formulações para escolher se a julgaremos, enquadraremos, apoiaremos ou criticaremos. Sob o aval e a boa pele da sororidade com umas, e apredrejamento silencioso (não assumido embora pensado), de outras. E sem nos darmos conta, aí mora a persistência e continuidade silenciosa, escondida sob a pele da militância, de formas nas quais nós lutamos tanto por combater.
Reconhecer a violência das relações afetivas para as mulheres como um todo e para cada caso individual também é um processo no qual estamos aprendendo a lidar. Em meio a isso, não nos tornemos meramente aquelas a dizer para as nossas companheiras o que elas devem esperar ou fazer com determinadas relações afetivas. Nem o que elas são dentro dessas relações, ou na vida. Nem sempre tudo se resume ao nosso discurso catalogador e prescritivo, nem sempre nossa ouvinte ou falante é somente somente autora ou somente vítima. Ser autora não a faz menor em nossa causa feminista. Nem a apedrejada pelo nosso senso moral é menos vítima e mais autora. A subjetividade de sua irmã que ouve o conselho, nem sempre se constitui somente de uma peça sem forma dentro de uma relação afetiva. Não partamos nós mesmas do pensamento simplista, binário, que as reformula e formula seus parceiros como constituintes somente de um bem a mulher, ou um mal a ela. Nem nós somos só o bem a nossa causa, nem só mal a nossas irmãs. Nem esse texto é uma nova prescrição do bem.
Entender a complexidade das autorias enriquece e muito a nossa possibilidade de ajuda. Criticar companheiras entendendo a complexidade das relações ajuda muito a não apontarmos dedos exigindo respostas prontas utilizadas em outras situações. A compreensão dá espaço a criatividade em nossas formas de resistência. E de fato, precisamos mais disso.
Entre nós, heterossexuais, lidamos com uma complexidade de situações diárias nos quais nossos próprios gritos de guerra, aqueles que lançamos às outras, são relevados em nossos próprios contextos pessoais. Dizemos machistas não passarão, mas fincamos relacionamentos em que investimos em transformar o machismo de nossos parceiros. O que queremos dizer realmente quando utilizamos esse termo? Seria deixa-los ficar em vez de passar, a nossa maior contribuição à nossa luta? Quando não passam, ficariam aonde, neste caso? Sabemos de fato como daremos conta desse lugar no qual ficarão? Ou pretendemos levantar um muro para nos afastarmos desse tal lugar de onde eles não passarão? Levantamos a guarda dos “machistas não passarão” antes de sabermos onde fica o não passar e o quanto ainda estaremos implicadas nisto, caso eles não passem.
Conseguimos apontar com exatidão a violência do parceiro alheio e a do próprio ex, inclusive considerando certas irmãs “passadoras de pano pra macho”. Mas no dia a dia passamos por situações em que passamos o pano para nós mesmas em nossas cansativas compreensões de nossos próprios parceiros e amigos. Eles não só passam, como passam com a gente, todos os dias.
Não sabemos se militamos para matar aos homens e assim acabar o problema pela raíz, ou se aceitamos que o feminismo não é encampar uma guerra intolerante - no sentido de não mais tolerarmos mais a existência da masculinidade tal qual a conhecemos.
Se matarmos aos machistas e algum homem ainda sobreviver, nunca saberemos se sua sobrevivência é por medo ou por adequação ao discurso vigente, se são mesmo críticos ao machismo. Nesse momento, escolheríamos se queremos mesmo transformá-los ou se viveremos em paz, aceitando que pelo menos estão quietinhos no canto. Ou ainda, seria possível viver em paz sem de fato transformá-los?
Se agimos calmamente corremos o risco de afrouxar conquistas e relativizar atitudes. De fato, tem uma berlinda que no nosso dia a dia se delineia.
Muitas de nós, de acordo com o contexto social e com as relações de poder com nossos irmãos, primos, tios, pais, parceiros e ex, chefes, e etc. achamos mais estratégico atuar discretamente, quase sorrateiramente.
Porém, a nossa confusa régua mesmo assim nos permite dizer que algumas são contraditoriamente feministas, por estarem com este ou aquele parceiro, não serem mais efusivas com este ou aquele amigo. Não conhecemos todo o vasto de complexidade das estratégias alheias em lidar com o machismo, e nem do nosso damos conta. Não conhecemos as intersecções sociais e suas formas de resistência ao machismo, porque mal entendemos outras realidades econômicas.
 Por outro lado, mal conseguimos descolar a imagem de amante privilegiada, egoísta, egocêntrica, incapaz de reflexão crítica ou pobre coitada, que fazemos daquelas que são “as outras”. Não vemos como parte da premissa avassaladora que, assim como não sabemos olhar nosso próprio lugar de práticas e discursos, não vemos as práticas das outras como exercício de suas escolhas feministas. Aqui, cuidado com a régua da medida feminista: nos parece tão absurdo e injusto que um homem zoado, de acordo com nossos parâmetros, fique com uma mulher incrível.  Como se existisse um lugar social tranquilo e distante que prive nossas incríveis mulheres de serem afetadas pelo machismo, ficando com homens livres da contaminação de focos machistas. Porque afinal, não conseguimos entender que ser incrível e estar com um homem proposto a desconstrução de si, não significa compactuar com os acontecimentos machistas entre ele e suas amigas, ele e suas mães, ele e suas irmãs, eles e seu passado? Não significa ser trouxa, ingênua, oportunista ou indiferente? Podemos ser mais feministas exercendo o feminismo com eles do que isoladas em nossa bolha de iguais, acreditando numa pureza de ideias e de práticas que não se mesclem.
E diante desse caos problemático dessas relações entre nossas irmãs e os homens de suas narrativas, nos atemos mais em passar sabão moral sobre “as outras” envolvidas nestas histórias: ah, a mãe dele, ah a ex, ah a atual dele, ah a amante... Somos tao feministas que ainda inserimos frases benevolentes como “ela não sabe de nada”, “ela não conhece ele”,  “ela não é feminista” “ela não entende o feminismo”, ou outras tantas que retiram totalmente a complexidade envolvida nessa história e a capacidade autoral dessas mulheres. Generalizando e minimizando suas capacidades cognitivas, damos fáceis explicações para os fenômenos de suas vidas: associamos a elas conforto econômico – não perdemos a oportunidade de fazer piada com seus parceiros sexuais, assim como de sua situação econômica diante da do parceiro -, acreditamos em suas futilidades ou achamos que exercem as mais carentes das carências.
Embora óbvio quando se trata de nós mesmas, não entendemos que uma relação entre mulher feminista e um homem não significa pacto e concordância entre ela e as atitudes machistas desse homem. Não necessariamente significa que essa mulher é um ser inerte submetida ao poder discursivo e alienante do homem. Não significa que ela relativiza a dor da outra, a que passou por esse homem. Não as vemos como autoras fundamentais nas formas de resistências ao machismo, combate ao machismo, construção de novas subjetividades então impensáveis, já que estão na linha de frente. 
E principalmente, não significa que a principal resistência de uma mulher realmente feminista em seus relacionamentos é seguir perpetuando a figura heroica dos romances do século passado: em prol da causa, ela deveria anular sua sexualidade e escolhas afetivas. A releitura da velha visão de que uma mulher realmente feminista (ou nos antigos moldes, feminina), não coloca à frente sua afetividade e sexualidade, como se isso a uma mulher representasse egoísmo. E somos tão noviças em nossas ideias com a mulher que não pertence ao nosso círculo quanto as achamos submissas por não terminarem seus relacionamentos em prol do que ouvimos ou sabemos.
O espírito do bom colonizador, quando muito, ainda vê com pena as mulheres que não seguem nossos pactos, muito mais moralistas que éticos.
Essa realidade precisa ser lida de modo mais complexo porque inclusive, eu e você, ambas heterossexuais, estamos nisso envolvidas do útero ao fio de cabelo.


Da (falta de) responsabilidade entre nosso discurso público e prática pessoais

Para proteger os discursos das irmãs que queremos acolher, por vezes perdemos a oportunidade de levantarmos juntos, mostrando que também somos feitas de incertezas e podemos ambas estar perdidas. Em alguns casos, as vítimas nossas irmãs que nos procuram são recebidas muito bem, e sentimos a sua dor, partilhando também de suas raivas, como se empatia com a dor e a luta por absorver a raiva alheia fossem sinônimas. Por vezes nos achamos corajosas e sabemos dizer a elas – como se fosse incrível conseguir fazer isso - que estão ainda sendo trouxas e tontas, de que ela precisa se libertar disso, de que esse certo isso presente no discurso dela pode contar sim com a sua ajuda, caso ela encampe uma guerra. Não entendemos o quanto é empoderador faze-la pensar naquilo que ela pode dar conta: ou seja, aquilo no qual ela é sujeita e poderosa para transformar. Achamos que nossa sororidade é sinônimo de complacencia – embora às “outras” somente dedicamos o olhar e apontamos o dedo crítico, já que da sua história não compartilhamos -. Agimos como se após o momento do abraço não pudéssemos pensar criativamente e criticamente como forma de ajuda.
Nossa ajuda por vezes se abstem - no momento certo, posterior a dor - de criticar racionalmente a relação construída por dois, nossa ajuda não consegue dizer para a irmã, “sim, você também foi sujeita do que viveu” achando que tal afirmação subestima a sua dor, achando que tal questionamento culpabiliza a vítima, como se toda ou qualquer reflexão crítica sobre si mesma dentro de uma relação fosse um erro estratégico que age contra o feminismo e não uma de suas maiores armas. Acabamos contraditoriamente agindo como se a capacidade autocrítica fosse uma injustiça. Agimos como se o machismo e o patriarcalismo das relações pertencessem somente ao homem: damos toda a autoria, de bandeja, ao homem. Dizemos, em entrelinhas, que eles sao o sujeito da relação, e nós somente sujeitadas. Dizemos que esperamos que reconheçam e transformem a sua autoria. Nos sentimos lutadoras por gritarmos que eles mudem. E nós, entre nós, seguimos prescrevendo a legítima vida e atitudes feministas umas para as outras.
Ajudamos essas irmãs? Na prática olhamos nosso caso pessoal com complexidade, mas a elas as aliviamos com prévias formulações sobre sua vida, baseada em nossas leituras e trocas de narrativas pautadas em bem e mal, certo e errado, um lado e outro e nada mais. No fundo, cada uma de nós, no seu âmbito pessoal entende o quanto sao complexas nossas relações para além do bem e do mal, e por isso nos ofendemos que alguém venha e formule a questão assim, nesses termos, dizendo que somos prescritivas demais. Ninguém se vê binariamente. Porém, não somos francas entre a prática de nossa vida e o que consideramos que deveria ser o certo para a outra. Sem nos dar conta, dizemos às parceiras: “o inferno sao os outros”.

De nós todas

Seria importante vermos não só nossas irmãs como vítimas ou autoras alienadas, no qual a situação as tornou cegas e incapazes de reagir: para o bem e para o mal, são críticas em potencial de si próprias e de nós, assim como somos delas. Não nos limitemos em achar que o máximo do nosso exercício prático é partilharmos de suas dores ou de seus discursos, sendo suas bóias de salvação. Por mais revolucionário que seja, atirar discursos prontos em mares que não conhecemos, as vezes é o barco mais furado para as afogarmos.

Entender que as nossas e as outras afetividades são políticas é ir além do que olhar com desconfiança ou legitimidade para as escolhas sexuais e afetivas de nossas irmãs, criando teorias que justifiquem o quanto ela faz parte, como uma peça imóvel, de um sistema que perpetua imobilidades sociais. A política não tem só dois lados, não sejamos extremistas entre nós mesmas. Conseguir polarizar uma irmã, coloca-la em contraste diante da falta de sororidade com a outra, ironicamente mostra que a nossa sororidade se move mais com a proximidade que enxergamos com o nosso caso pessoal,  - com aquilo que nos afetaria e nos causaria dor e ressentimento  - do que propriamente com a criação de um espaço comum de liberdade afetiva, sexual e financeira entre umas e outras, amenizando os desníveis sociais e econômicos e possibilitando suas transformações. Sejamos sinceras com a medida de nossa hipocrisia feminista.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

preconceito seletivo #Cena 12


Levei minha filha, já com 12 anos, numa biblioteca da USP comigo. 
Aquela coisa de querer que seu filho te veja e assim estude também. Chegando lá ela ocupou uma mesa de estudos com seus livros e cadernos e ficou, escrevendo e marcando, toda realizada, seu roteiro de estudos. Chamei ela para sair comigo. Saímos pela porta da biblioteca depois de guardarmos no armário o computador. Saímos com a chave do guarda volumes na mao, de boas, pra comer algo e voltar. Mas aí a gente saiu com um HD na mao. Pedi pra ela voltar e guardar no armário junto com o computador, enquanto buscava o remédio. E eis que quando eu volto ela está na porta da biblioteca, imóvel, me chamando com aquela cara de vergonha disfarçada, que eu já conheço. Imaginei que a pessoa da biblioteca falou que nao poderia ter saído com a chave, e como ela tem uma vergonha desmedida sempre que um adulto desconhecido chama sua atenção, pensei que era só eu ir lá explicar, qualquer coisa a gente sairia depois. Voltei falando ‘oi, é que saímos para buscar o remédio e guardamos o computador, mas o resto ta lá na mesa’.
Ele nem ouviu, disse que o que ela fez (assim bem grosso) era errado, que ele nao é obrigado a cuidar de armário enquanto a pessoa sai, e coisas assim,. Nao entendi porque o problema nem era o armário, foi ela ter ficado na porta com cara de taxo me esperando, e isso de certa forma, o ofendeu. Falei ok, mas ela nao deixou aberto, só foi me chamar pq vc falou que nao podia mais usar, ela nao sabia o que fazer afinal e foi me chamar, vc viu ela me chamando... e ele ignorou e mudou pra outro foco: com tom de ironia e grosseiro, passou a desdenhar dizendo que eu nao cumpro regras e ele cumpre e que por favor, quer sair, leve tudo ..tá incomodada, fale com a direção - mesmo eu nao tendo dito nada. E nem tinha muito o que eu falar já que estava errada né, por mais que todo mundo fizesse isso. Mas eu me senti humilhada na frente dela, ficou implícito que eu não sou capaz de dar bom exemplo, afinal olha ela ali fazendo tudo errado. Resolvi nao responder a grosseria, nem fazer nada, depois eu explicaria a ela que tem gente que nao gosta de criança e trata elas assim mesmo. Pedi para que ela fosse buscar o material na mesa pra gente ir embora. Aquele minuto de silencio que dá vontade de chorar enquanto o funcionário segue satisfeito: missão cumprida.
Eu ja ia embora conformada e eis que, nesse momento, entra um aluno usp, branco, sacudindo uma chave do armário na mao, uma chave que saiu para dar uma volta com ele sabe-se lá quando, de um armário que nao tinha nada guardado dentro, quando ele abriu. Ele levou a chave só para garantir que o armário estaria lá qdo precisasse. Ali na nossa frente, e na frente do funcionário, guardou suas coisas no ‘seu’ armário.
Para a minha surpresa, aquele funcionário defensor das chaves dos armários nao o viu, embora de relance o tenha olhado. E era um momento ápice para a defesa das regras das chaves e de sabe-se de mais o que, era um momento em que ele seguia atento na direção dos armários porque eu ainda estava ali e ele ainda estava nervoso com esses usuários sem regras. Mas ele nao seguiu o rapaz com os olhos como seguiu a menina. Parece desmedido seguir a todos esperando uma infração. Mas sabemos, a medida tem rosto e a regra tem seleção. Aquele rapaz nao tinha cara de infrator de regras. Acho que uma pessoa branca com cara e camiseta de aluno usp nao gera indignação o suficiente a ponto de vc se sentir obrigado a levantar os olhos do computador e assistir seus atos esperando acontecer algo emocionante, do tipo ele estar com um chave de armário. Sendo insustentável esperar infração de todos, então os mais óbvios sao seguidos e, coincidentemente, os óbvios tem sempre o mesmo aspecto físico.
Eu já tinha pensado que as razões internas daquele funcionário de ser irônico e grosseiro comigo e com a minha filha nao tinham a ver com o armário. Ninguém precisa subir em cima da autoridade para explicar o óbvio e, apriori, falando baixo já seria possível de entender o recadp. Mas foi um discurso fervoroso e indignado de ver uma menina sem nada de cara usp passar e usar o armário como se fosse assim, natural, como se ela pudesse também se igualar aos demais. Como se o ambiente fosse dela também. Ela nao tem cara de filho de funcionário, nem camiseta da escola da usp: além de criança, é criança estrangeira ao espaço... e não é branca. Sabe como as pessoas olham criança de rua quando ela entra num restaurante? E aí por falta do que falar, indignadas pedem pra sair, porque assim diz as regras?
Fui até ele e disse, ‘estamos saindo, mas vc nao viu o rapaz passando com a chave na mao? ‘, Ele respondeu alterado que nao tem como ver todo mundo. Concordei, porque isso é verdade. Afinal, a gente só levanta o olho do computador quando quer, que a gente elege quem deve ou nao ser olhado, tanto no ônibus quanto na rua e que, alguém com cara de aluno USP branco nao parecia necessariamente alguém com quem ele devesse levantar os olhos e seguir seus passos, melhor então escolher alguns. Nesse momento de nervoso ele passou a ficar espantado dizendo, você esta me acusando disso? Enfim, nem lembro se ele conseguiu chegar perto da palavra preconceito, mas racismo, ahh, isso passou longe. É que as pessoas pensam que racismo é ku kux klan, queimar negro vivo, coisas assim, televisivas e de gente má, feitas com alguém beem negro (sabe-se lá qual seja a régua para medir negritude que o nosso racismo diário usa). Pardos, da cor da minha filha nao é preconceito não... mas bem que ela podia nao estar ali, fazendo igual fazem os alunos, afinal, uma hora a coisa desanda e já pensou um monte de gente igual a ela fazendo isso, usando armários públicos com toda essa liberdade? Poucas pessoas entendem o racismo como a indignação com o uso de espaços públicos por pessoas fazendo exatamente o que as outras fazem, com a diferença que nao tem cara de aluno usp, de classe média alta, cara de que é bonitinho estar ali porque foi merecido. Assim é nos aeroportos quando as pessoas fazem piadas com a presença de pobres, assim é nos shoppings qdo alguém deixa de ser atendido, assim os seguranças seguem as pessoas no mercado, assim é nas bibliotecas da USP. E como em todos esses lugares, as pessoas se escondem atrás de regras explícitas ou implícitas para justificar a ironia e grosseria que, sem perceberem, só aplicam a um determinado publico. Uma vez, num prédio que a gente tinha acabado de mudar, um porteiro viu minha filha tentando lembrar a senha do portão e gritou ‘sai daí menina dos infernos’, e qdo ela conseguiu abrir ele percebeu que nao era criança de rua, e sim moradora. Ele me pediu desculpas dias depois, porque viu que eu agi diferente com ele, afinal, olhou de relance e teve certeza de que nao era morador. Claro, como se essa tal olhada de relance não carregasse nenhum valor moral. Nessa época minha filha ficou com medo de retaliação e pediu pra que eu nao conversasse com o porteiro. Agora, com ela maior, tudo que poderia falar naquele momento, dentro da biblioteca, eu falei . Ela vai passar por isso outras vezes na vida, e tem que entender que nao é ela que tem que ter medo de retaliação.
O defensor seletivo dos armários tentou se livrar de me ouvir, me mandando ir à chefe, já que eu nao queria cumprir as regras, ah, ainda esse papo de que foi as regras. Assim como todos, a atitude seletiva e a grosseria desmedida passam por uma capa mágica de invisibilidade: a pessoa sofre uma perda de memória seletiva e fica indignada que vc aponte descaradamente o que ela nao consegue ver, e pra sair dessa saia justa, cada um justifica como pode. Enfim.
Falei, embora nao fosse ouvida, e saí. Fomos para outra biblioteca, uma que tinha uns filhos de funcionários esperando a hora da escola, como na maior parte das bibliotecas da USP. Ali esses filhos fazem tudo o que se a minha filha tivesse feito ali na ECA teria sido humilhada: usavam o computador, deixavam a bolsa do lado de fora do armário, transitavam e liam e, ainda assim, a biblioteca continuava a vida normalmente. Tem espaços assim, que entendem que a regra pode conviver com a formação da infância alheia, sem humilhação. Que os pais que usam a biblioteca podem ensinar seus filhos a usarem aquele espaço de maneira saudável, que a regra as vezes é insustentável e dependendo do caso é melhor deixar passar porque nao vale a pena atrasar a vida de ninguém. Porém, é só porque são filhos de funcionários, não tenho ilusão nenhuma de que sejam espaços democráticos. A hipocrisia das regras segue servindo aos nossos preconceitos e se diluindo de acordo com as necessidades de quem manda.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Bota a cara no sol e veste legging

Daí você acorda pensando assim... mais um dia andando na rua. Porque você tem que colocar a cara no sol, tendo ou não sol. Porque? Porque trabalha, estuda, segue a vida.
Até aí premissas básicas para todo mundo que não nasceu rico e que sustenta uma casa. Até aí...
E se esse ser que põe a cara no sol for mulher?
Se for mulher tem um monte de cuidados que deveriam estar ligados a você.
Cuidados na forma de sorrir e jogar o cabelo, na forma de andar, na forma de vestir ou de passar ou não o batom.
Vai estar escrito no seu rosto e na sua roupa os lugares adequados para você frequentar, assim como os trejeitos adequados para estar nesses lugares.

Com 40 anos não podemos usar legging porque não é adequado(?).
Com 20 usamos um short leggin e também não é adequado(?).
Essas peças existem, sim. Afinal servem, ou  deveriam servir, para cobrir o corpo que não pode andar nu, sem limitar os movimentos.
O que vem junto, como prêmio, é que elas associadas ao nosso corpo dizem, para quem nos olha, o que somos, o que podemos.. e o que merecemos...
Nós sabemos disso, e os homens também. Afinal, embora as mulheres espalhem esses valores, são eles os beneficiados.
A variação de atitude vai desde um pedido de desculpas por esbarrar na sua bunda, até ser chamada de piranha e levar um tapa de mão cheia.
Daí.. que você pode ou não, seguir isso. Todas nós em algum momento, decidimos ligar ou não para possíveis comentários.

Você escolhe a legging hoje, e diz pra si mesma "ninguém tem nada a ver com isso". Ou não... Neste caso tem o receio, vergonha e medo do que vão dizer e fazer.
Sendo a resposta um sim, você sai na rua. Sai para caminhar, correr ou andar de bicicleta.

Sabe aquele cara que parou pra vc atravessar? ele vai seguir sua bunda com os olhos, claro. Pelo menos não mexeu.
O cara que tá vendendo milho, sabe?.. ele vai se sentir autorizado a te falar alguma coisa.. Pelo menos não sacaneou...
O taxista, caso vc queira o seu direito de atravessar naquela faixa de pedestre num momento que o faça parar, vai te chamar de novinha sem noção, ou de tia, inclusive te chama de gostosa e distraída (ainda que seja seu o direito de atravessar na faixa e o dele de parar)... Pelo menos não xingou..
No fim, você se torna flexível com os comentários e olhadas alheias.. afinal, do contrário andaria revoltada, ou não sairia de casa.

Ou pior: você está de bike, disputando (se podemos chamar de disputa uma situação em que uma das partes está em desvantagem) um espaço na rua. E de legging. Imagina.

Não há um dia que eu saia de legging e de bike que pelo menos 10 caras não falem alguma coisa.  São normalmente o cara que vende fruta, o taxista, o motoqueiro, o pedestre atravessando, o pastor com aquele megafone, o moço que distribui panfleto.. Enfim, tudo gente de bem, galera trabalhadora, com família e mulher em casa. Inclusive, filhas que usam legging. 
Eles gritam todas as cantadas, falam abertamente e alto do meu corpo, buzinam, enfim. São cenas naturais e rápidas do cotidiano. Ninguém liga, nem eles. Fazem quase por obrigação ética: afinal, alguém tem que me lembrar que sou mulher andando de bicicleta sozinha na rua...alguém precisa me dizer o quão inadequado é essa cena.
E eu sigo todo dia de legging porque estou atravessando dois bairros para chegar no curso técnico de dança. Eu não faço aula de jeans, para a infelicidade dos bons moralistas. E é pela aula que já saio de legging. Mas ainda que estivesse indo à igreja ou ao bar,  a rua é um espaço de transição que não é meu e portanto, sorrateiramente é um espaço para se andar na linha.. Tênue linha de guerra que minha roupa me permite perceber.

O que somos está aí, em nossos acessórios: a bicicleta e a calça falam tudo de você. Assim como a notícia explica a advogada pelo blazer que combina com os sapatos. Não tem muita coisa para se saber sobre uma mulher, nos dizem sem dizer.
O que incomoda está aí, em nossos trejeitos: o desrespeito de ocupar um espaço, que nao é feminino. Nos dizem a cada denuncia de assedio, estupro, ou os xingamentos básicos ligados a nossa vida sexual, tenhamos uma ou não. 

Não sendo a rua um espaço feminino, há um modo adequado de se portar. Bike e legging não é o melhor para uma mulher com cara de novinha, como costumo ouvir. Isso porque a disputa pela faixa do canto, o sinal que eu dou ao motorista avisando que vou entrar, assobiar ao pedestre que atravessa fora da faixa sem olhar, tudo isso não fica muito bonito sendo feito e avisado por uma mulher de legging, na bike. É como se eu nao pudesse exigir meu espaço no trânsito. Para eles nao faz sentido me ver exigindo passagem e impondo regras de trânsito, num mundo em que as regras são feitas por homens.

E eu percebo isso nem pelas mexidas, mas pelos conselhos: o cara que vende salada de fruta vem na contramão, na faixa em que passa carro e eu. O que ele me diz, assim que desvio olhando para todos os lados? Toma cuidado, menina... Ele está errado, mas o cuidado tem que ser meu. O taxista conversa com o outro com a cabeça dentro do carro e o resto do corpo ocupando a faixa. Ele diz pra mim, cuidado novinha... Vários motoristas estacionam na faixa e abrem a porta sem olhar. Eles também dizem, cuidado menina.
De fato eu me cuido. Não porque acho fofinho esse monte de conselho. Faço diariamente o trabalho dobrado: olho por eles, olho por mim, paro por todos porque preservo a minha vida acima de quem for o erro. E é claro que isso é que permite com que eles sigam assim.
Querendo ou não, somos nós que nos adaptamos, e não eles.
Eu penso sempre: se nesse momento eles virassem para falar essas tao amorosas frases e dessem de cara com um homem, bem grande, na bike? Será que eles ririam para ele com aquela cara de desdém que só o poder dá, dizendo quase virando os olhos e suspirando, com uma voz de pena: cuidado grandão?

Eu já saio conhecendo todas essas situações, inclusive mais que eles. Olho para todos os carros parados com desconfiança e tenho vontade de gritar toda vez que tem um corpo, com a cabeça pra dentro da janela do carro, e a bunda bem ressaltada do lado de fora. Primeiro porque são tão sem noção que a qualquer momento podem dar um passo pra trás e ser pego por um ciclista..
Segundo porque é sempre homem, nunca vi uma mulher assim. A gente é tão domesticada que só empina a bunda em público quando se distrai muito. E se fizermos, vai passar um carro buzinando, lembrando pra gente como devemos agir corretamente nesse espaço, masculino por excelência, que é a rua.

Masculino não porque só tenha homem. Na verdade sempre vejo mais mulheres. Masculino porque eles nos repreendem, mexendo. E nunca são repreendidos de volta por nós. Fazem tudo sorrindo. Fazem porque podem. Porque é natural e esperado. A nossa falta de adequação ao espaço deles, permite isso.

Uma série de conselhos diários que me dizem assim: Estamos errados, mas a rua é nossa. Você que se cuide. Seria um modo natural de dizer que eu poderia ter trejeitos e espaços adequados, porém, não os escolhi. Poderia estar no ônibus, poderia estar a pé na calçada. Poderia estar de jeans. Eu até poderia estar de bike, mas com uma cestinha de flor e no parque, no fim de semana.
Não tendo escolhido nada disso, naturalmente vou pagar em dobro o fato de ter escolhido agir diferente.
E nem tão diferente assim. Nunca fiz malabares na bike, nem ando pelada, nem saio gritando morte ao machista. Não. Na verdade, eu subo na bike e pedalo até meu rumo, de legging. Só isso.
E ainda assim, sou uma aberração na rua. Imagine se eu fosse de fato fazer o que tenho vontade.

Não seguir os corretos trejeitos, de recato, de estar num ônibus sentada com o material cobrindo o peito e uma saia até depois do joelho significa que.. seu corpo está vulnerável.
Contraditoriamente ao que deveria ser garantido a quem está vulnerável, é nesse momento que esse corpo será exposto.
Nessa hora ele será alvo de todo o repertório de palavras que o associem com sexo. O corpo feminino é desejado para o sexo, e é por meio do ato sexual que os homens criaram repertório para nos xingar.
Nessa hora é somente um corpo que não precisa ter o mesmo grau de respeito de um corpo recatado e do lar. Corpo na linha tênue ..que desafia a guerra que dorme nos trejeitos bem comportados.

Tornam você mais vulnerável na medida em que não respeitam o seu corpo. O corpo é o nosso risco, mulher. É justamente pelo corpo que enfrentamos o limite da nossa vulnerabilidade quando, na naturalidade do agir, assumimos que não somos frágeis.

E todos os castigos submetidos aos nossos corpos vem para marcar com ferro, fogo e estupro que nunca devemos esquecer desse limite. Se a partir de um certo espaço, você ultrapassa o que lhe foi permitido, está ao mesmo tempo se pondo em situação de risco e autorizando algumas formas de abuso. Como há várias formas, temos diversos abusos para cada situação. Quanto mais diários, menos te chocam, muito te expõem.

É um jeito de nos manter em certos lugares, sob certas premissas e com certas atitudes. Qualquer ultrapassagem, marcas corporais e morais nos esperam.

É uma guerra. Silenciosa e sorridente como o a apresentadora que veste terninho e maquiagem leve no telejornal. Uma guerra no qual qualquer comentário sobre nosso corpo desmoraliza nosso pensamento.
Guerra daquelas que põem nossa cara no sol.