quinta-feira, 27 de junho de 2019

Glitter no taco

Eu comecei sem saber ao certo porquê.
Mas foi o xaveco mais gostoso e bonito que eu troquei por mensagem nesses últimos tempos.
Porque tinha um quê de sinceridade...
Ele veio irresponsavelmente de cabeça, de maneira tão suave, dessas que você acha que pode ir também.. que se ele banca, você também banca... que se ele se arrisca, o risco seu é o mesmo..

Igualdade meu bem, e isso é lindo..
....
que
não.
....

E sempre se descobre o óbvio só depois...
Mesmo sabendo, pelos caminhos da experiência que já trilhou, que não há igualdade, vc defende a igualdade que ele acredita, e não a que te preserva.

Depois disso, ele quis ter certezas, porque afinal, sabe calcular a própria vida e não se arriscaria em nada que não tivesse retorno.

Abria asas, e ter me descoberto somente despertou a curiosidade de voar por aqui, já que meu peito parecia voo alto. Eu sei o quanto saltei para manter alto, esse peito avoado.

Entao vieram oportunidades: vida, trabalho, longas distancias .. bom conhecer gente nova, tanta paisagem bonita nesse mundo também...


Foi uma presença maravilhosa, fofo o tempo que pôde. Afinal, sair moralmente bem é fundamental pra voar leve.

Mas modo como ele dirigiu a conversa do fim eu senti, aqui dentro de mim, uma ponta de crueldade no tom, na escolha das palavras, no olhar.. que eu não esperava e não entendi o porquê ou praquê.

Entao resolvi ser plateia do fim, para ver até onde ele seria capaz de ir.
Foi a ultima performance que meu corpo se permitiu viver. Fazer do silêncio, experimento... da calma, experimento... da clareza, experimento.
Como Marina Abramovich, deixei as armas na mesa pra ver até aonde o outro iria, diante da minha impotência.

Ele delimitou nao valer a pena.
Facada direta na asa um.


E disse obrigado.
[Gratiluz versão sintética]
Facada direta na asa dois.


Literalmente, eu vi nos lábios dele que deixei de valer a pena. Como um investimento, desses que vc calcula a liquidez afetiva.

O obrigado foi mais ofensivo do que o "não vale a pena", e nunca conseguiria dizer porquê: ecos de outros amores.
Dores que ele desconhece, e nao porque eu nao tivesse contado, mas por ele nunca ter sentido.

Tudo isso me lembrou o quanto me sinto porto de homens maravilhosos que passam pelo meu ventre para pegar calor, abrigo e conhecimento, e depois partem achando que um muito obrigado é tudo o que podem ofertar, ou o que eu mereça ouvir.
Minimizam responsabilidades emocionais por meio da gratiluzisse deles.

Saem desastradamente, tropeçando e quebrando tudo, com a grande desculpa de que é hora de pensar em si próprios.

Como se em algum momento não pensaram.

...
Como se viver intensamente aquela paixão sem pensar no depois, não fosse pensar em si próprio.

Ou se então,

como se planejar casamento e filhos segundo seus próprios modelos, não fosse pensar em si próprio.

Como se o rico campo antropológico que fizeram ao imergirem na minha vida, não fosse pensar em si próprios.
....
Só saem.
....
Nunca deixam nada, nem se preocupam com nada.
...
Quando partem fica a casa inteira pra limpar: cacos emocionais por todos os lados, cacos que entram nos tacos igual glitter de carnaval. Brilham um brilho encardido durante anos, uma luz que é só lembrança de uma alegria passada.

A partida dói para as duas partes, pensam...
Mas não é sobre dor... é sobre carga...
Sobre os contêiners a mais que cada relação traz pra gente cuidar. Sobre navios de petróleo parados no nosso mar.

E me pergunto se a recusa deles em perceber a desigualdade óbvia nessa balança que pesa pra nós é autoboicote, incapacidade, ou só covardia mesmo.

Durante a relação, sempre acreditam entender as diferenças existentes.

Mas a cada partida que assisto,
percebo o quanto, no fundo,
eles só não querem sair de seus lugares de conforto para entender o desconforto emocional
que é ser peito
feito de mar e vôo, diante de um barco carregado de pólvora.

Um dia, eu sei, seremos tão afetivamente descoladas de suas cargas, que assistiremos a esses barcos explodindo, um a um, enquanto caminhamos de mãos dadas pela areia.

Mas até lá calmamente sorrirei a cada encontro com a mesma sinceridade que procuro sorrir para meu ventre. Cuidar não me impede de viver.
Eu gosto de glitter, só nao gosto de sofrer.