quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sobre essa gente de bem, que pede o golpe: Cenas do cotidiano

Mudei faz pouco tempo de casa. Daí que o apartamento tem daquelas coisinhas típicas de dono que põe pra alugar apto sem revisar antes: janelas que não fecham, (todas) tomadas com mal contato. Entrei em contato certa de que essas coisas deveriam ser vistas antes de alugar, mas ok.
Bom, a dona veio em casa. E, ao passar pela porta da sala viu um adesivo “Não vai ter golpe”. Daí em diante não consegui mais completar metade das frases. Ela simplesmente não conseguia mais me ouvir. Primeiro porque, embora dona da maior parte dos aptos do prédio, disse que, por causa do governo, estava fodida de grana. E que essas pessoas acostumadas a ter tudo acham que vão entrar num apto e poder pedir até tampa de vaso. Ignorei, insisti na tomada e nas janelas que não fecham. Ela insistiu nos bolsistas do governo. (categoria de pessoas eleitora do Lula, segundo alguém).
Tentei respondê-la mil vezes. Surda e cega por uma raiva que eu não entendi bem da onde que vinha, tinha assuntos onde tomada que não funciona e Dilma ja eram a mesma coisa. E, dos dois problemas, a tomada ela não podia resolver, mas a Dilma, essa sim, botaria pra cair.
Então, seguindo no assunto das pessoas que vivem de bolsa, lançou aquele veeelho argumento de que ninguém quer mais trabalhar. Eu já estava confusa se esse alguém era eu porque, obviamente, se quero que ela conserte as tomadas da casa que me alugou, em vez de eu mesma ir lá e pagar um eletricista sem reclamar, é porque sou da turma dos que não trabalham, além de ser de esquerda, claro.
Porque agora esses direitos mínimos e mesquinhos, necessários ao próprio funcionamento do capitalismo são coisa de esquerda, e consequentemente, a esquerda não trabalha. Vive de bolsa.
Mas aí ela emendou e falou da irmã da empregada. Essa faz filho pra viver de bolsa família enquanto sua empregada, há dez anos com ela, fez enfermagem e continua trabalhando lá. Eu disse: "sinal que vc paga bem, melhor que a bolsa do governo pelo menos”. E ela mesmo disse que não, que pagava um salário mínimo.. Assim, dona da metade do prédio que ela não arruma, também não pode pagar mais que um salário mínimo pra quem limpa sua sujeira. “então imagine quanto não é a bolsa do governo, com certeza menos que isso” arrisquei. E disse que não discutiria mais, porque pmdb nunca é pauta de discussão embora sejam os maiores bolsistas dos últimos 30 anos, só pra me manter no nível das bolsas, porque nada indignava mais ela do que isso.
A contragosto consertará as tomadas.
Mas o que tirei disso é que quase fico sem tomada, e por consequência, sem poder trabalhar (mesmo sendo de esquerda), por causa do adesivo contra golpe, na porta de casa.
Vi uma mulher muito desgastada e torcendo pela queda do governo como se fosse a vitória do Brasil na copa. Já sabemos que é impossível discutir com essa torcida organizada. Mas agora podemos ficar sem serviços básicos também, porque, essa gente de bem, é daquelas pra quem, esquerda boa não precisa de atendimento médico nem de condições de moradia. Tem um cheiro no ar de que esquerda boa, é esquerda morta, ou pelo menos, quieta sob um governo rígido. Num contexto em que pedir pra consertar uma tomada virou um ato de esquerda


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Bogotá

Eu lembro do cheiro e do gosto daquelas manhãs em Bogotá. Da calma e do silêncio em que eu habitava. E da clausura em que eu guardava a vontade de estar amando, não só o contexto, mas o que ligava aquela pessoa a mim. 
Eu chorei de deixar algumas lágrimas correrem em silêncio. Lágrimas tão invisíveis como as de um bicho que chora preso. Lágrimas sem nome social. Lágrimas de silêncio.
Eu sinto falta de ser sua amante. Porque naqueles dias fui a melhor amante do que ja havia sido em toda a minha vida. Eu tinha clara a intensão de dar o melhor de mim. Eu quis isso. Até hoje, não quis de novo como quis aqueles dias em Bogotá. Eu lembro da janela enorme no quarto, do silencio da quadra, do frio que espreitava lá fora... Eu lembro da curva da cama, do corpo ao lado, da leveza do lençol, do peso da minha memória dolorida que ainda carregava um outro corpo.
Lembro da lembrança desse corpo fantasma, corpo esvaziado de sentido mas que ainda me doía. Eu lembro de tudo o que aquelas manhãs o corpo ao meu lado, e sua leveza, e seu cheiro de cigarro e café, fez para que eu esquecesse o corpo que vinha na memória. E ele nem sabia disso. Ele não sabe o quanto especial foi pra mim. Eu agradeço cada manhã, cada pãozinho meia lua com manteiga. Cada mirada pela janela, cada gole de café.
Eu lembro que não tinha pressa. Que queria os dias durando muito. E acabavam. Três vezes de dez dias... os dias sempre acabavam. E pra chegar até ali eram longas esperas em que o tempo corria, só para esses dez dias de câmera lenta, câmera fria.. e cama acalentada.

Aquelas manhãs tão bonitas, como podem nunca mais voltar? Bogotá.. Bogotá...