Eu posso produzir um diploma e um certificado,
Sou uma buceta
intelectual...
Posso dançar com destreza,
Serei uma buceta talentosa,
Canto, escrevo, performo,
Uma buceta maravilhosa,
Envelheço,
Buceta velha que dá nojo imaginar buceta..
Eu existo, e para os homens eu sou buceta enquanto ainda
danço, canto, balanço sorrisos e os quadris por aí num rosto que ainda reflita
uma buceta cheia de encantos mil no solo do meu brasil brasileiro. Produto
nosso, consumo perecível.
Mas as opções de vida embucetada são grandes, para que não
reclamemos sem motivos de termos a oportunidade de ser um produto que, além de nacional pode ser de consumo internacional.
Os homens vendem bem a imagem do sabor de nossos produtos em todos os meios em que
os discursos, ainda que saído de boca de mulheres, soe muito masculino..
Nada melhor, em condições de prazo de validade e selo de
qualidade ideais, do que uma buceta brasileira exportada. E vários viajantes
vem aqui provar o sabor da nossa fruta. Perpetuam em suas conversas íntimas, a
suave propaganda do conteúdo superficial.
O produto profundo, consequência do superficial, é a parte
descartável, porque problemática. Jogam fora e se martirizam, numa vaidade
abafada, dos apegos emocionais que vêm junto com os chás de buceta que
experimentam por aí.
Não sou só eu, meninas, uma buceta. Você também. E sua mae,
e sua filha, e a sobrinha e a vizinha. É a menina do telemarketing, a que vai
casar, a cobradora mal humorada, a funcionaria publica, a novinha, a decidida,
a professora, a de black empoderado, a funckeira, a evangélica.
A bancada do senado, a equipe jornalística, e todos os rostinhos femininos que desempenham
as funções e cargos de trabalhadora que conquistamos, se podemos chamar de conquista, quando lutamos pelo nosso
direitos no capitalismo.
Trabalhamos para continuar sendo medidas pela simpatia, pela
beleza, pela feminilidade, pela doçura e servidão, pela disputa de espaço com
outras mulheres, pela oportunidade de ser promovida, ou não, pelo sexo. Por todas
aquelas características que em maior ou menor grau nos classifica num mercado
invisível dado pelo valor moral da sua buceta.
Em maior ou menor grau meninas, mais do que ter essa
orquídea no meio das pernas, é o quanto conseguimos jogar com ela brincando com
as regras invisíveis desse mercado diário. Diariamente nos imaginam peladas no
ônibus, chupando sorvete, correndo atrás do cachorro. Somos ouvidas em troca de
talvez sermos comida.
Caminhando na rua com nossas pernas de foras e seios pulando
do decote, as regras invisíveis dizem: exibidas
para os homens pensarem nas nossas bucetas. Silenciosamente o pai de família, o
menino do facebook, o intelectual, o de esquerda, o de direita, o ex meu e seu,
o cara legal, o jovem casado, o conservado e o conservador, tem no nosso corpo
a corporizaçao de um pensamento:
Há bucetas casáveis – devem ser conservada sob o anel do
cuidado e matrimonio. Os amigos nem secretamente se permitem olhar aqueles
olhos como bucetas.. só os pervertidos.
Há bucetas comíveis – tem sabor e cheiro exóticos e servem
para aquelas ocasiões em que dá vontade comer fora de casa. Os amigos olham e
comentam. Se diferenciam pelas mais gourmetizadas, merecendo um investimento
maior, às mais baratas, ganhando uma proliferação de frases ma-ra-vi-lho-sas -
dentro da limitada teia de palavras masculinas – sobre como é o seu consumo.
Há bucetas indiferentes – aquelas mulheres que no máximo
você admira naquele extremo oposto de qualquer forma de desejo. Sem despertar
qualquer desejo, sua opinião, ou desperta bocejo, ou é papo de anjo: sem sexo.
Invisivelmente, depois de dada idade, ou dona de um certo
corpo, saímos do jogo. Nos colocam como espectadoras de uma história onde
nossos corpos não tem lugar. A imagem de nossa buceta passa a ser pesadelo e piada.
Se aceitam que falemos de sexualidade, no mínimo é esperando que não falemos da
nossa em público. Bucetas que não despertam interesse. Buceta fora do mercado,
sua opinião no mínimo reflete que ela não foi comida, não é comida e não será
comida.
Eu posso produzir um texto sobre o que vejo da sexualidade
que me deram. Quando o ler em público o ar da graça dos gracejos de minha
sexualidade é que determinarão, não só meus ouvintes, mas o tamanho do eco nas
cabeças mais ocas. Eu escrevo, me vejo uma orquídea florescendo.