quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

embucentando

Eu posso produzir um diploma e um certificado,
Sou  uma buceta intelectual...
Posso dançar com destreza,
Serei uma buceta talentosa,
Canto, escrevo, performo,
Uma buceta maravilhosa,
Envelheço,
Buceta velha que dá nojo imaginar buceta..
Eu existo, e para os homens eu sou buceta enquanto ainda danço, canto, balanço sorrisos e os quadris por aí num rosto que ainda reflita uma buceta cheia de encantos mil no solo do meu brasil brasileiro. Produto nosso, consumo perecível.


Mas as opções de vida embucetada são grandes, para que não reclamemos sem motivos de termos a oportunidade de ser um produto que,  além de nacional pode ser de consumo internacional. Os homens vendem bem a imagem do sabor de nossos produtos em todos os meios em que os discursos, ainda que saído de boca de mulheres, soe muito masculino..
Nada melhor, em condições de prazo de validade e selo de qualidade ideais, do que uma buceta brasileira exportada. E vários viajantes vem aqui provar o sabor da nossa fruta. Perpetuam em suas conversas íntimas, a suave propaganda do conteúdo superficial.

O produto profundo, consequência do superficial, é a parte descartável, porque problemática. Jogam fora e se martirizam, numa vaidade abafada, dos apegos emocionais que vêm junto com os chás de buceta que experimentam por aí.

Não sou só eu, meninas, uma buceta. Você também. E sua mae, e sua filha, e a sobrinha e a vizinha. É a menina do telemarketing, a que vai casar, a cobradora mal humorada, a funcionaria publica, a novinha, a decidida, a professora, a de black empoderado, a funckeira, a evangélica.
A bancada do senado, a equipe jornalística,  e todos os rostinhos femininos que desempenham as funções e cargos de trabalhadora que conquistamos, se podemos chamar  de conquista, quando lutamos pelo nosso direitos no capitalismo.
Trabalhamos para continuar sendo medidas pela simpatia, pela beleza, pela feminilidade, pela doçura e servidão, pela disputa de espaço com outras mulheres, pela oportunidade de ser promovida, ou não, pelo sexo. Por todas aquelas características que em maior ou menor grau nos classifica num mercado invisível dado pelo valor moral da sua buceta.
Em maior ou menor grau meninas, mais do que ter essa orquídea no meio das pernas, é o quanto conseguimos jogar com ela brincando com as regras invisíveis desse mercado diário. Diariamente nos imaginam peladas no ônibus, chupando sorvete, correndo atrás do cachorro. Somos ouvidas em troca de talvez sermos comida.
Caminhando na rua com nossas pernas de foras e seios pulando do decote,  as regras invisíveis dizem: exibidas para os homens pensarem nas nossas bucetas. Silenciosamente o pai de família, o menino do facebook, o intelectual, o de esquerda, o de direita, o ex meu e seu, o cara legal, o jovem casado, o conservado e o conservador, tem no nosso corpo a corporizaçao de um pensamento:
Há bucetas casáveis – devem ser conservada sob o anel do cuidado e matrimonio. Os amigos nem secretamente se permitem olhar aqueles olhos como bucetas.. só os pervertidos.
Há bucetas comíveis – tem sabor e cheiro exóticos e servem para aquelas ocasiões em que dá vontade comer fora de casa. Os amigos olham e comentam. Se diferenciam pelas mais gourmetizadas, merecendo um investimento maior, às mais baratas, ganhando uma proliferação de frases ma-ra-vi-lho-sas - dentro da limitada teia de palavras masculinas – sobre como é o seu consumo.
Há bucetas indiferentes – aquelas mulheres que no máximo você admira naquele extremo oposto de qualquer forma de desejo. Sem despertar qualquer desejo, sua opinião, ou desperta bocejo, ou é papo de anjo: sem sexo.
Invisivelmente, depois de dada idade, ou dona de um certo corpo, saímos do jogo. Nos colocam como espectadoras de uma história onde nossos corpos não tem lugar. A imagem de nossa buceta passa a ser pesadelo e piada. Se aceitam que falemos de sexualidade, no mínimo é esperando que não falemos da nossa em público. Bucetas que não despertam interesse. Buceta fora do mercado, sua opinião no mínimo reflete que ela não foi comida, não é comida e não será comida.
Eu posso produzir um texto sobre o que vejo da sexualidade que me deram. Quando o ler em público o ar da graça dos gracejos de minha sexualidade é que determinarão, não só meus ouvintes, mas o tamanho do eco nas cabeças mais ocas. Eu escrevo, me vejo uma orquídea florescendo.