quarta-feira, 28 de junho de 2017

tudo

Antes eu achava que nem tudo dava pra ser dito.

E achando assim o nem tudo acabou virando quase tudo. 
E eu achava que nao dizia quase tudo porque para cada tudo que eu pensava, grande parte ficava parada numa poça qualquer, em algum canto da garganta.
Daí comecei a dizer uns tudo por aí. 
Um tudo aqui, outro ali.
E como guardei muitos, achei que eles deviam ser ditos do jeito que melhor mostrasse o quanto são uma parte de mim.

Afinal, o que é o todo sem o eu mesma? entao quanto mais tudos eu partilhava, mais toda de mim eu era.

E muitos tudos foram quase todos para as mesmas pessoas de sempre. Entao eu vi que tenho pelo menos duas categorias de tudo.

No primeiro grupo de tudo cabem as pessoas que ouvem os tudos que eu realmente de fato nao diria se nao fossem eles reais e queridos ouvintes de mim. Pra eles eu digo solenemente tudo. Chamarei estes de Iguais.

No segundo, que quase sempre são as mesmas pessoas ouvindo tudo de novo, um monte de tudos que eu insistia em acreditar ainda nao ter dito o suficiente. Aqui e ali sempre falta um tudo a ser dito. Para eles eu despejo tudo. Não tem nome pra essa categoria. Entao chamarei estes de Outros.

Os iguais merecem a solenidade do meu tudo. 
Os outros merecem ouvir um tudo em forma de despacho. Normalmente dizemos que não nos importamos com esses, que são os outros, mas eles nos irritam, entao estamos sempre lhes dizendo alguma coisa.

Para os primeiros tudo é empatia e amor. Para os segundos eu lacro neles tudo.



Hoje eu já acho que nem tudo serve para ser dito.

 Dizer solenemente para os iguais o mesmo tudo de novo, já nao me esconde mais o tudo que eu nao sei dizer porque não vivi.

E nem me esconde dos outros.  Os outros também falam, e insistem em me dizer - seja solenemente, seja lacradoramente de ouvidos tampados -  a enorme quantidade de tudo o que lhes vem na telha, baseado numa montanha de tudos racionais construídos entre seus iguais.

Ouvir forçadamente o seu tudo e forçar você a ouvir o meu tudo parece mostrar quanto falta do outro em mim, e eu em você, nisso que chamamos de escolha. Fingimos que é uma escolha do outro ouvir. Escolha porque falou. Escolha porque ficou. Escolha porque nos dói admitir que nossa dor é nossa e portanto por vezes individual a ponto de a dor que eu causo no outro não justificá-la. Chamamos escolha porque não vemos no outro capacidade de dor diante de nossa fala necessária, e escuta fingida.

Eu ouço bravatas chamadas solenemente de 'não aguento mais nao dizer tudo' e somente penso: com quantos tudos se mascara o interesse só na própria individualidade? 
E quantos tudos por aí que poderiam ser ditos se a escuta não fosse fingida?
Quantos deixam de ser formulados diante desse básico cuidado com o outro,  básico medo do outro.. 

Como agir diante do outro que fala autorizadamente do local que é não se ver como igual?

Aquele sapo na garganta seria mesmo o tudo que precisa ser dito ou seria parte de um ego que nao sabe se calar?  Um eu que nao entende o limite do seu nada. Um eu que se acha por demais dono de tudo. Dono daquilo que acredita? 
Dono de estudos? 
Dono de páginas de livros lida? 
Dono da verdade daquilo tudo parado na garganta?
Todos nós donos, em posse da fé de que o que sabemos é nosso, o que vivemos é nosso, e quem tem que nos ouvir é os outros.
Nao escrevo em defesa da nao fala. Em favor de que uns tudos aí caiam amargos em longos silêncios e espera. Nem poderia, se quisesse.

Escrevo pela falta de voz que é ouvir em silêncio sofrimentos causados por um eu que se acha tudo e insiste que só há o outro como culpa ou escuta.
Quando o outro é um nada a ser ouvido em meio de seu tudo, o seu tudo não tem no outro o seu maior problema.


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