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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Bota a cara no sol e veste legging

Daí você acorda pensando assim... mais um dia andando na rua. Porque você tem que colocar a cara no sol, tendo ou não sol. Porque? Porque trabalha, estuda, segue a vida.
Até aí premissas básicas para todo mundo que não nasceu rico e que sustenta uma casa. Até aí...
E se esse ser que põe a cara no sol for mulher?
Se for mulher tem um monte de cuidados que deveriam estar ligados a você.
Cuidados na forma de sorrir e jogar o cabelo, na forma de andar, na forma de vestir ou de passar ou não o batom.
Vai estar escrito no seu rosto e na sua roupa os lugares adequados para você frequentar, assim como os trejeitos adequados para estar nesses lugares.

Com 40 anos não podemos usar legging porque não é adequado(?).
Com 20 usamos um short leggin e também não é adequado(?).
Essas peças existem, sim. Afinal servem, ou  deveriam servir, para cobrir o corpo que não pode andar nu, sem limitar os movimentos.
O que vem junto, como prêmio, é que elas associadas ao nosso corpo dizem, para quem nos olha, o que somos, o que podemos.. e o que merecemos...
Nós sabemos disso, e os homens também. Afinal, embora as mulheres espalhem esses valores, são eles os beneficiados.
A variação de atitude vai desde um pedido de desculpas por esbarrar na sua bunda, até ser chamada de piranha e levar um tapa de mão cheia.
Daí.. que você pode ou não, seguir isso. Todas nós em algum momento, decidimos ligar ou não para possíveis comentários.

Você escolhe a legging hoje, e diz pra si mesma "ninguém tem nada a ver com isso". Ou não... Neste caso tem o receio, vergonha e medo do que vão dizer e fazer.
Sendo a resposta um sim, você sai na rua. Sai para caminhar, correr ou andar de bicicleta.

Sabe aquele cara que parou pra vc atravessar? ele vai seguir sua bunda com os olhos, claro. Pelo menos não mexeu.
O cara que tá vendendo milho, sabe?.. ele vai se sentir autorizado a te falar alguma coisa.. Pelo menos não sacaneou...
O taxista, caso vc queira o seu direito de atravessar naquela faixa de pedestre num momento que o faça parar, vai te chamar de novinha sem noção, ou de tia, inclusive te chama de gostosa e distraída (ainda que seja seu o direito de atravessar na faixa e o dele de parar)... Pelo menos não xingou..
No fim, você se torna flexível com os comentários e olhadas alheias.. afinal, do contrário andaria revoltada, ou não sairia de casa.

Ou pior: você está de bike, disputando (se podemos chamar de disputa uma situação em que uma das partes está em desvantagem) um espaço na rua. E de legging. Imagina.

Não há um dia que eu saia de legging e de bike que pelo menos 10 caras não falem alguma coisa.  São normalmente o cara que vende fruta, o taxista, o motoqueiro, o pedestre atravessando, o pastor com aquele megafone, o moço que distribui panfleto.. Enfim, tudo gente de bem, galera trabalhadora, com família e mulher em casa. Inclusive, filhas que usam legging. 
Eles gritam todas as cantadas, falam abertamente e alto do meu corpo, buzinam, enfim. São cenas naturais e rápidas do cotidiano. Ninguém liga, nem eles. Fazem quase por obrigação ética: afinal, alguém tem que me lembrar que sou mulher andando de bicicleta sozinha na rua...alguém precisa me dizer o quão inadequado é essa cena.
E eu sigo todo dia de legging porque estou atravessando dois bairros para chegar no curso técnico de dança. Eu não faço aula de jeans, para a infelicidade dos bons moralistas. E é pela aula que já saio de legging. Mas ainda que estivesse indo à igreja ou ao bar,  a rua é um espaço de transição que não é meu e portanto, sorrateiramente é um espaço para se andar na linha.. Tênue linha de guerra que minha roupa me permite perceber.

O que somos está aí, em nossos acessórios: a bicicleta e a calça falam tudo de você. Assim como a notícia explica a advogada pelo blazer que combina com os sapatos. Não tem muita coisa para se saber sobre uma mulher, nos dizem sem dizer.
O que incomoda está aí, em nossos trejeitos: o desrespeito de ocupar um espaço, que nao é feminino. Nos dizem a cada denuncia de assedio, estupro, ou os xingamentos básicos ligados a nossa vida sexual, tenhamos uma ou não. 

Não sendo a rua um espaço feminino, há um modo adequado de se portar. Bike e legging não é o melhor para uma mulher com cara de novinha, como costumo ouvir. Isso porque a disputa pela faixa do canto, o sinal que eu dou ao motorista avisando que vou entrar, assobiar ao pedestre que atravessa fora da faixa sem olhar, tudo isso não fica muito bonito sendo feito e avisado por uma mulher de legging, na bike. É como se eu nao pudesse exigir meu espaço no trânsito. Para eles nao faz sentido me ver exigindo passagem e impondo regras de trânsito, num mundo em que as regras são feitas por homens.

E eu percebo isso nem pelas mexidas, mas pelos conselhos: o cara que vende salada de fruta vem na contramão, na faixa em que passa carro e eu. O que ele me diz, assim que desvio olhando para todos os lados? Toma cuidado, menina... Ele está errado, mas o cuidado tem que ser meu. O taxista conversa com o outro com a cabeça dentro do carro e o resto do corpo ocupando a faixa. Ele diz pra mim, cuidado novinha... Vários motoristas estacionam na faixa e abrem a porta sem olhar. Eles também dizem, cuidado menina.
De fato eu me cuido. Não porque acho fofinho esse monte de conselho. Faço diariamente o trabalho dobrado: olho por eles, olho por mim, paro por todos porque preservo a minha vida acima de quem for o erro. E é claro que isso é que permite com que eles sigam assim.
Querendo ou não, somos nós que nos adaptamos, e não eles.
Eu penso sempre: se nesse momento eles virassem para falar essas tao amorosas frases e dessem de cara com um homem, bem grande, na bike? Será que eles ririam para ele com aquela cara de desdém que só o poder dá, dizendo quase virando os olhos e suspirando, com uma voz de pena: cuidado grandão?

Eu já saio conhecendo todas essas situações, inclusive mais que eles. Olho para todos os carros parados com desconfiança e tenho vontade de gritar toda vez que tem um corpo, com a cabeça pra dentro da janela do carro, e a bunda bem ressaltada do lado de fora. Primeiro porque são tão sem noção que a qualquer momento podem dar um passo pra trás e ser pego por um ciclista..
Segundo porque é sempre homem, nunca vi uma mulher assim. A gente é tão domesticada que só empina a bunda em público quando se distrai muito. E se fizermos, vai passar um carro buzinando, lembrando pra gente como devemos agir corretamente nesse espaço, masculino por excelência, que é a rua.

Masculino não porque só tenha homem. Na verdade sempre vejo mais mulheres. Masculino porque eles nos repreendem, mexendo. E nunca são repreendidos de volta por nós. Fazem tudo sorrindo. Fazem porque podem. Porque é natural e esperado. A nossa falta de adequação ao espaço deles, permite isso.

Uma série de conselhos diários que me dizem assim: Estamos errados, mas a rua é nossa. Você que se cuide. Seria um modo natural de dizer que eu poderia ter trejeitos e espaços adequados, porém, não os escolhi. Poderia estar no ônibus, poderia estar a pé na calçada. Poderia estar de jeans. Eu até poderia estar de bike, mas com uma cestinha de flor e no parque, no fim de semana.
Não tendo escolhido nada disso, naturalmente vou pagar em dobro o fato de ter escolhido agir diferente.
E nem tão diferente assim. Nunca fiz malabares na bike, nem ando pelada, nem saio gritando morte ao machista. Não. Na verdade, eu subo na bike e pedalo até meu rumo, de legging. Só isso.
E ainda assim, sou uma aberração na rua. Imagine se eu fosse de fato fazer o que tenho vontade.

Não seguir os corretos trejeitos, de recato, de estar num ônibus sentada com o material cobrindo o peito e uma saia até depois do joelho significa que.. seu corpo está vulnerável.
Contraditoriamente ao que deveria ser garantido a quem está vulnerável, é nesse momento que esse corpo será exposto.
Nessa hora ele será alvo de todo o repertório de palavras que o associem com sexo. O corpo feminino é desejado para o sexo, e é por meio do ato sexual que os homens criaram repertório para nos xingar.
Nessa hora é somente um corpo que não precisa ter o mesmo grau de respeito de um corpo recatado e do lar. Corpo na linha tênue ..que desafia a guerra que dorme nos trejeitos bem comportados.

Tornam você mais vulnerável na medida em que não respeitam o seu corpo. O corpo é o nosso risco, mulher. É justamente pelo corpo que enfrentamos o limite da nossa vulnerabilidade quando, na naturalidade do agir, assumimos que não somos frágeis.

E todos os castigos submetidos aos nossos corpos vem para marcar com ferro, fogo e estupro que nunca devemos esquecer desse limite. Se a partir de um certo espaço, você ultrapassa o que lhe foi permitido, está ao mesmo tempo se pondo em situação de risco e autorizando algumas formas de abuso. Como há várias formas, temos diversos abusos para cada situação. Quanto mais diários, menos te chocam, muito te expõem.

É um jeito de nos manter em certos lugares, sob certas premissas e com certas atitudes. Qualquer ultrapassagem, marcas corporais e morais nos esperam.

É uma guerra. Silenciosa e sorridente como o a apresentadora que veste terninho e maquiagem leve no telejornal. Uma guerra no qual qualquer comentário sobre nosso corpo desmoraliza nosso pensamento.
Guerra daquelas que põem nossa cara no sol.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

embucentando

Eu posso produzir um diploma e um certificado,
Sou  uma buceta intelectual...
Posso dançar com destreza,
Serei uma buceta talentosa,
Canto, escrevo, performo,
Uma buceta maravilhosa,
Envelheço,
Buceta velha que dá nojo imaginar buceta..
Eu existo, e para os homens eu sou buceta enquanto ainda danço, canto, balanço sorrisos e os quadris por aí num rosto que ainda reflita uma buceta cheia de encantos mil no solo do meu brasil brasileiro. Produto nosso, consumo perecível.


Mas as opções de vida embucetada são grandes, para que não reclamemos sem motivos de termos a oportunidade de ser um produto que,  além de nacional pode ser de consumo internacional. Os homens vendem bem a imagem do sabor de nossos produtos em todos os meios em que os discursos, ainda que saído de boca de mulheres, soe muito masculino..
Nada melhor, em condições de prazo de validade e selo de qualidade ideais, do que uma buceta brasileira exportada. E vários viajantes vem aqui provar o sabor da nossa fruta. Perpetuam em suas conversas íntimas, a suave propaganda do conteúdo superficial.

O produto profundo, consequência do superficial, é a parte descartável, porque problemática. Jogam fora e se martirizam, numa vaidade abafada, dos apegos emocionais que vêm junto com os chás de buceta que experimentam por aí.

Não sou só eu, meninas, uma buceta. Você também. E sua mae, e sua filha, e a sobrinha e a vizinha. É a menina do telemarketing, a que vai casar, a cobradora mal humorada, a funcionaria publica, a novinha, a decidida, a professora, a de black empoderado, a funckeira, a evangélica.
A bancada do senado, a equipe jornalística,  e todos os rostinhos femininos que desempenham as funções e cargos de trabalhadora que conquistamos, se podemos chamar  de conquista, quando lutamos pelo nosso direitos no capitalismo.
Trabalhamos para continuar sendo medidas pela simpatia, pela beleza, pela feminilidade, pela doçura e servidão, pela disputa de espaço com outras mulheres, pela oportunidade de ser promovida, ou não, pelo sexo. Por todas aquelas características que em maior ou menor grau nos classifica num mercado invisível dado pelo valor moral da sua buceta.
Em maior ou menor grau meninas, mais do que ter essa orquídea no meio das pernas, é o quanto conseguimos jogar com ela brincando com as regras invisíveis desse mercado diário. Diariamente nos imaginam peladas no ônibus, chupando sorvete, correndo atrás do cachorro. Somos ouvidas em troca de talvez sermos comida.
Caminhando na rua com nossas pernas de foras e seios pulando do decote,  as regras invisíveis dizem: exibidas para os homens pensarem nas nossas bucetas. Silenciosamente o pai de família, o menino do facebook, o intelectual, o de esquerda, o de direita, o ex meu e seu, o cara legal, o jovem casado, o conservado e o conservador, tem no nosso corpo a corporizaçao de um pensamento:
Há bucetas casáveis – devem ser conservada sob o anel do cuidado e matrimonio. Os amigos nem secretamente se permitem olhar aqueles olhos como bucetas.. só os pervertidos.
Há bucetas comíveis – tem sabor e cheiro exóticos e servem para aquelas ocasiões em que dá vontade comer fora de casa. Os amigos olham e comentam. Se diferenciam pelas mais gourmetizadas, merecendo um investimento maior, às mais baratas, ganhando uma proliferação de frases ma-ra-vi-lho-sas - dentro da limitada teia de palavras masculinas – sobre como é o seu consumo.
Há bucetas indiferentes – aquelas mulheres que no máximo você admira naquele extremo oposto de qualquer forma de desejo. Sem despertar qualquer desejo, sua opinião, ou desperta bocejo, ou é papo de anjo: sem sexo.
Invisivelmente, depois de dada idade, ou dona de um certo corpo, saímos do jogo. Nos colocam como espectadoras de uma história onde nossos corpos não tem lugar. A imagem de nossa buceta passa a ser pesadelo e piada. Se aceitam que falemos de sexualidade, no mínimo é esperando que não falemos da nossa em público. Bucetas que não despertam interesse. Buceta fora do mercado, sua opinião no mínimo reflete que ela não foi comida, não é comida e não será comida.
Eu posso produzir um texto sobre o que vejo da sexualidade que me deram. Quando o ler em público o ar da graça dos gracejos de minha sexualidade é que determinarão, não só meus ouvintes, mas o tamanho do eco nas cabeças mais ocas. Eu escrevo, me vejo uma orquídea florescendo.