Das
relações
Talvez até entendemos que a complexidade das
relações afetivas são atravessadas por relações de poder, as quais é importante
conhecermos as suas formas e táticas.
Também entendemos que quando descrevemos e narramos o que nos
passou, estamos dando forma e discursos sobre essas estratégias de poder ao
qual tentamos escapar. Ou seja, resistimos e, para resistir, precisamos nomear e
entender aquilo contra o qual resistimos. Como consequência, acabamos também
construindo discursos sobre nós mesmo que antes não havia. Daí acreditamos que
nós somos a resistência já que estamos construindo outras possibilidades.
Sim, molieres, somos “a resistência”.
Nessa sociedade, ao menos. Mas, o que estamos criando é somente resistência?
Por vezes, em nossos próprios discursos que se
propõem a resistir e encontrar novas possibilidades às mulheres -
principalmente às negras que necessitam de uma dupla resistência - não
estaríamos reafirmando as táticas e estratégias de poder que estamos combatendo?
Em outras palavras, nós, que já somos
mulheres “feministas”, críticas, pesquisadoras, não estamos reafirmando
discursos patriarcais sob a pele da sororidade que nos permite, em nossos
coletivos e pequenos grupos, silenciar outras mulheres também críticas e
pesquisadoras? Fogo amigo? O quanto as ouvimos a partir do momento que não as
consideramos emancipadas o suficiente? Lacradoras o suficiente?
Embora a medida e régua da suficiência
não esteja dada, não conseguiríamos nós nos autocriticar e enxergar que nossas
escolhas, nossos grupos, nossas exclusões se dão por uma silenciosa medida da
suficiência?
Nossa militância por vezes esconde as
mesmas táticas prescritivas para a vida de nossas irmãs quanto o patriarcado
para homens e mulheres: em nossa prática, abordamos o feminismo e o não-feminismo
das companheiras a partir das relações interpessoais que essas mulheres
estabelecem. Enfim, é o que temos. Quem é você em meio ao caos? e assim pedimos
as identidades. Curtimos mil vezes seus posts lacradores como a própria voz da
resistência ecoando em frente ao espelho. E para as outras nos damos ao direito
de por na balança as gramas das práticas e discursos alheios para saber: é
feminista ou não essa mina dita feminista?
E não quero simplesmente problematizar se
é certo ou não essa necessidade de medir. Acredito ser mais interessante analisar
as consequências positivas e negativas disto para uma luta pautada em novas
subjetividades para nós, mulheres. Até onde conseguimos caminhar com nossas
réguas? Em que momento ela nos fortalece e em que momento expõe nossas mazelas?
Corremos o risco, implícito, de nos
limitar. Vamos pensar, por exemplo, que não há nesse texto nada de útil.
Afinal, neste momento de poucas conquistas e muitas perdas, apontar falta de
estratégias - tanto coletivas quanto individuais - nessas que são a linha de
frente das vozes nas redes sociais, nessas que estão em nossas páginas no face,
nos relatos fervorosos de nossas irmãs, nos encontros em que podemos ser amigas
por aquilo que temos de comum em nossa resistência, nos nossos textos e
palestras, nos nossos saraus e peças realmente parece um desserviço.
Considerando que temos essas páginas, peças, saraus, pessoas e afins constantemente
atacadas, considerando que esses espaços são constantemente cerceados, não
seria esse o momento propício, para nos voltarmos a uma autocrítica? Esse
momento em que somos resistência àquilo que nos molda, a esse cerceamento
externo e conservador, não seria também o momento para reconhecermos as
limitações internas que fazemos à nossa liberdade de recriarmos constantemente
a nossa identidade? Não temos o caldo para repensarmos aquilo que queremos e o
modo como criamos esse querer?
Pensar o quanto nossa prática pode reafirmar
o que queremos romper também contribui para as demandas básicas e gritantes,
como a manutenção dos direitos básicos. A crítica a si também é necessária à
luta por uma subjetividade que rompa com as formas afetivas destinadas a mulher.
Aqui é o que me interessa, porque é onde mora o risco da prescrição: não só reformulamos
a nós mesmas com as narrativas e experiências umas das outras, como, neste
processo, visando nos ajudar mutuamente, apontamos para nossas irmãs a
perpetuação de certos discursos e práticas que tem efeitos machistas.
Sem dúvida, apontar é necessário. Porém,
a construção desse apontamento para a outra, o modo como isso será realizado, também
é parte tanto do processo final dessa luta, quanto o meio pelo qual faremos tal
luta. E daí a autocrítica necessária de nossas formas. Daí onde mais vejo o
silencioso olhar buscando medir a suficiência ou não do feminismo alheio. Aqui
onde colamos as identidades que viram nossas referências e as que escolhemos
negar em todos os aspectos. Aqui que não entendemos que não precisamos assumir
atitudes prescritivas para sermos feministas.
Aqui onde não dizemos isso a nossas “personalidades”
feministas de referência. Aqui onde dizer muito ou não dizer nunca nada
compromete como olharão a nossa régua feminista. A tal subjetividade acima
mencionada, mesmo se for conquistada, não é um fim em si mesma, senão um
processo constante. Pensemos o quão político e dotado de relações de poder
também são os dedos que apontamos a nossas irmãs.
Do levante
à desculpa
Indo mais além, vamos pensar um pouco
sobre o nosso discurso sobre nós mesmas quando estamos no fundo do poço. Nós
que nos vemos feministas. O feminismo está aí nesse momento, te possibilitando
entender que você é composta por muitas estruturas sociais, inclusive estas
estruturas compõem o que sente e a maneira como sente. O feminismo ajuda-nos a
atenuar ou mesmo abolir nossa sensação de culpa: culpa na maternidade, culpa na
sociedade, culpa na violência, culpa por não sermos estéticas ou femininas o
suficientes, enfim, culpas para a mulher há infinitas.
Em um outro extremo, o feminismo não é um
conceito-chave para justificarmos a nós mesmas a impossibilidade de sermos
autoras, a incapacidade de reformular a si mesmas e a inércia do nosso corpo
dentro das estruturas que, emancipadamente, reconhecemos e nela atuamos. Isso
não é dizer que temos de nos tornar heroínas, e sim que, a partir do momento em
que optamos em seguir vivendo, não o façamos por mera obrigação com os filhos,
ou com a sociedade. O feminismo - e todas suas intersecções - é uma ferramenta
que nos permite pensar quais as formas de resistência possíveis para a nossa
vida. Afinal, somos feministas para transformar. Senão ainda esse mundo, talvez
a nós mesmas, juntamente com nossas parceiras e parceiros.
Por vezes nem notamos, mas anulamos a
nossa possibilidade de ser autoras em nossas relações afetivas – sejam as
atuais ou as ex relações que, por algum pacto social ainda temos que manter -.
Anulamos e reconhecemos o machismo como culpado, sem nos darmos conta de que ao
esterilizarmos nossa ação somos machistas também. Claro que nossa autoria
perpassa resistências e transgressões que, por vezes, não conseguimos transpor,
mas as estratégias de transposição não deixam de ser resistência.
Não somos dois lados da mesma moeda: um
lado autora da própria vida, outro não; um lado que tem carteirinha com a
verdade feminista; outro errando porque filosofa demais e acaba relativizando
tudo. Somos um punhado de experiências que nem sempre estabelecem uma narrativa
uniforme que vai de vítima a vítima, de vítima a heroína, de heroína a vítima,
de parceira de luta a vilã ou outras combinações. Dentro do mesmo
acontecimento, por vezes somos também a autora, a violência, a consequência, o
estrago, a dor e o reconhecimento de que algo precisa ser transformado. O
feminismo não surgiu para anular nossas práticas, torna-las estéreis e
protegidas sobre uma película - confortável e desconfortável ao mesmo tempo –
do discurso.
E aqui, por favor, sejamos críticas e não
hipócritas. Falo a nós, que fazemos a crítica, diante da nossa prática entre nós
mesmas e para nós mesmas. O feminismo nos torna autoras, a ponto inclusive de
nos permitir enxergar a estrutura do qual fazemos parte, e possibilitar certas
resistências dentro do patriarcado que, a longo e a curto prazo, depende muito
mais da nossa capacidade articulativa do que o bom senso masculino de
reconhecer seus erros.
Da
diferença entre nós x a outra
Fazemos um duplo movimento reconfortante
em nossa “militância amiga”: identificamos quem são as outras - as que não estão com a gente - porque isso
ajuda a identificar o quanto parceiras somos nós entre nós. E mantemos a
discussão no nível das mancadas alheias, protegendo assim a capacidade de
reconhecer que também erramos. Somos violentadas e violentas. E a nossa
violência se volta mil vezes mais contra nós mesmas, a ponto de nos cegar que
um dia o fomos ou ainda o somos, que temos parte nisso tudo, incluindo o
machismo. Anulamos e infantilizamos a autoria das nossas irmãs enquanto
contraditoriamente vemos as “outras” como autoras, cuja justificativa ou é
egoísmo ou ignorância desmedidas.
De nós para nós: por vezes estamos entre
nossos pares e, para ajudar, analisamos suas vidas afetivas. Conhecemos e
partimos, por vezes, de um conjunto de premissas anteriores ao contexto que
elas nos trazem. Ou seja, transformamos o acontecimento afetivo, (seja ele um
casamento, um namoro, uma ficada, um fim ou começo de um) em um conjunto de
frases que podem ou não ser encaixadas aqui e ali. Enquadramos a história e relação
afetiva de nossas irmãs para conseguir entender e então, opinar. Partimos dessas
formulações para escolher se a julgaremos, enquadraremos, apoiaremos ou
criticaremos. Sob o aval e a boa pele da sororidade com umas, e apredrejamento
silencioso (não assumido embora pensado), de outras. E sem nos darmos conta, aí
mora a persistência e continuidade silenciosa, escondida sob a pele da
militância, de formas nas quais nós lutamos tanto por combater.
Reconhecer a violência das relações
afetivas para as mulheres como um todo e para cada caso individual também é um
processo no qual estamos aprendendo a lidar. Em meio a isso, não nos tornemos
meramente aquelas a dizer para as nossas companheiras o que elas devem esperar ou
fazer com determinadas relações afetivas. Nem o que elas são dentro dessas
relações, ou na vida. Nem sempre tudo se resume ao nosso discurso catalogador e
prescritivo, nem sempre nossa ouvinte ou falante é somente somente autora ou
somente vítima. Ser autora não a faz menor em nossa causa feminista. Nem a
apedrejada pelo nosso senso moral é menos vítima e mais autora. A subjetividade
de sua irmã que ouve o conselho, nem sempre se constitui somente de uma peça
sem forma dentro de uma relação afetiva. Não partamos nós mesmas do pensamento
simplista, binário, que as reformula e formula seus parceiros como
constituintes somente de um bem a mulher, ou um mal a ela. Nem nós somos só o
bem a nossa causa, nem só mal a nossas irmãs. Nem esse texto é uma nova prescrição
do bem.
Entender a complexidade das autorias
enriquece e muito a nossa possibilidade de ajuda. Criticar companheiras
entendendo a complexidade das relações ajuda muito a não apontarmos dedos exigindo
respostas prontas utilizadas em outras situações. A compreensão dá espaço a
criatividade em nossas formas de resistência. E de fato, precisamos mais disso.
Entre nós, heterossexuais, lidamos com
uma complexidade de situações diárias nos quais nossos próprios gritos de
guerra, aqueles que lançamos às outras, são relevados em nossos próprios contextos
pessoais. Dizemos machistas não passarão, mas fincamos relacionamentos em que
investimos em transformar o machismo de nossos parceiros. O que queremos dizer
realmente quando utilizamos esse termo? Seria deixa-los ficar em vez de passar,
a nossa maior contribuição à nossa luta? Quando não passam, ficariam aonde,
neste caso? Sabemos de fato como daremos conta desse lugar no qual ficarão? Ou
pretendemos levantar um muro para nos afastarmos desse tal lugar de onde eles
não passarão? Levantamos a guarda dos “machistas não passarão” antes de
sabermos onde fica o não passar e o quanto ainda estaremos implicadas nisto,
caso eles não passem.
Conseguimos apontar com exatidão a
violência do parceiro alheio e a do próprio ex, inclusive considerando certas
irmãs “passadoras de pano pra macho”. Mas no dia a dia passamos por situações
em que passamos o pano para nós mesmas em nossas cansativas compreensões de
nossos próprios parceiros e amigos. Eles não só passam, como passam com a gente,
todos os dias.
Não sabemos se militamos para matar aos
homens e assim acabar o problema pela raíz, ou se aceitamos que o feminismo não
é encampar uma guerra intolerante - no sentido de não mais tolerarmos mais a
existência da masculinidade tal qual a conhecemos.
Se matarmos aos machistas e algum homem
ainda sobreviver, nunca saberemos se sua sobrevivência é por medo ou por
adequação ao discurso vigente, se são mesmo críticos ao machismo. Nesse
momento, escolheríamos se queremos mesmo transformá-los ou se viveremos em paz,
aceitando que pelo menos estão quietinhos no canto. Ou ainda, seria possível viver
em paz sem de fato transformá-los?
Se agimos calmamente corremos o risco de
afrouxar conquistas e relativizar atitudes. De fato, tem uma berlinda que no
nosso dia a dia se delineia.
Muitas de nós, de acordo com o contexto
social e com as relações de poder com nossos irmãos, primos, tios, pais, parceiros
e ex, chefes, e etc. achamos mais estratégico atuar discretamente, quase
sorrateiramente.
Porém, a nossa confusa régua mesmo assim
nos permite dizer que algumas são contraditoriamente feministas, por estarem
com este ou aquele parceiro, não serem mais efusivas com este ou aquele amigo.
Não conhecemos todo o vasto de complexidade das estratégias alheias em lidar
com o machismo, e nem do nosso damos conta. Não conhecemos as intersecções
sociais e suas formas de resistência ao machismo, porque mal entendemos outras
realidades econômicas.
Por
outro lado, mal conseguimos descolar a imagem de amante privilegiada, egoísta,
egocêntrica, incapaz de reflexão crítica ou pobre coitada, que fazemos daquelas
que são “as outras”. Não vemos como parte da premissa avassaladora que, assim
como não sabemos olhar nosso próprio lugar de práticas e discursos, não vemos
as práticas das outras como exercício de suas escolhas feministas. Aqui,
cuidado com a régua da medida feminista: nos parece tão absurdo e injusto que
um homem zoado, de acordo com nossos parâmetros, fique com uma mulher
incrível. Como se existisse um lugar social
tranquilo e distante que prive nossas incríveis mulheres de serem afetadas pelo
machismo, ficando com homens livres da contaminação de focos machistas. Porque
afinal, não conseguimos entender que ser incrível e estar com um homem proposto
a desconstrução de si, não significa compactuar com os acontecimentos machistas
entre ele e suas amigas, ele e suas mães, ele e suas irmãs, eles e seu passado?
Não significa ser trouxa, ingênua, oportunista ou indiferente? Podemos ser mais
feministas exercendo o feminismo com eles do que isoladas em nossa bolha de
iguais, acreditando numa pureza de ideias e de práticas que não se mesclem.
E diante desse caos problemático dessas
relações entre nossas irmãs e os homens de suas narrativas, nos atemos mais em
passar sabão moral sobre “as outras” envolvidas nestas histórias: ah, a mãe
dele, ah a ex, ah a atual dele, ah a amante... Somos tao feministas que ainda
inserimos frases benevolentes como “ela não sabe de nada”, “ela não conhece
ele”, “ela não é feminista” “ela não
entende o feminismo”, ou outras tantas que retiram totalmente a complexidade
envolvida nessa história e a capacidade autoral dessas mulheres. Generalizando
e minimizando suas capacidades cognitivas, damos fáceis explicações para os
fenômenos de suas vidas: associamos a elas conforto econômico – não perdemos a
oportunidade de fazer piada com seus parceiros sexuais, assim como de sua
situação econômica diante da do parceiro -, acreditamos em suas futilidades ou
achamos que exercem as mais carentes das carências.
Embora óbvio quando se trata de nós
mesmas, não entendemos que uma relação entre mulher feminista e um homem não
significa pacto e concordância entre ela e as atitudes machistas desse homem.
Não necessariamente significa que essa mulher é um ser inerte submetida ao
poder discursivo e alienante do homem. Não significa que ela relativiza a dor
da outra, a que passou por esse homem. Não as vemos como autoras fundamentais
nas formas de resistências ao machismo, combate ao machismo, construção de
novas subjetividades então impensáveis, já que estão na linha de frente.
E principalmente, não significa que a principal
resistência de uma mulher realmente feminista em seus relacionamentos é seguir
perpetuando a figura heroica dos romances do século passado: em prol da causa,
ela deveria anular sua sexualidade e escolhas afetivas. A releitura da velha
visão de que uma mulher realmente feminista (ou nos antigos moldes, feminina),
não coloca à frente sua afetividade e sexualidade, como se isso a uma mulher representasse
egoísmo. E somos tão noviças em nossas ideias com a mulher que não pertence ao
nosso círculo quanto as achamos submissas por não terminarem seus
relacionamentos em prol do que ouvimos ou sabemos.
O espírito do bom colonizador, quando muito,
ainda vê com pena as mulheres que não seguem nossos pactos, muito mais
moralistas que éticos.
Essa realidade precisa ser lida de modo
mais complexo porque inclusive, eu e você, ambas heterossexuais, estamos nisso
envolvidas do útero ao fio de cabelo.
Da
(falta de) responsabilidade entre nosso discurso público e prática pessoais
Para proteger os discursos das irmãs que
queremos acolher, por vezes perdemos a oportunidade de levantarmos juntos,
mostrando que também somos feitas de incertezas e podemos ambas estar perdidas.
Em alguns casos, as vítimas nossas irmãs que nos procuram são recebidas muito
bem, e sentimos a sua dor, partilhando também de suas raivas, como se empatia
com a dor e a luta por absorver a raiva alheia fossem sinônimas. Por vezes nos
achamos corajosas e sabemos dizer a elas – como se fosse incrível conseguir
fazer isso - que estão ainda sendo trouxas e tontas, de que ela precisa se
libertar disso, de que esse certo isso presente no discurso dela pode contar
sim com a sua ajuda, caso ela encampe uma guerra. Não entendemos o quanto é
empoderador faze-la pensar naquilo que ela pode dar conta: ou seja, aquilo no
qual ela é sujeita e poderosa para transformar. Achamos que nossa sororidade é
sinônimo de complacencia – embora às “outras” somente dedicamos o olhar e
apontamos o dedo crítico, já que da sua história não compartilhamos -. Agimos
como se após o momento do abraço não pudéssemos pensar criativamente e
criticamente como forma de ajuda.
Nossa ajuda por vezes se abstem - no
momento certo, posterior a dor - de criticar racionalmente a relação construída
por dois, nossa ajuda não consegue dizer para a irmã, “sim, você também foi
sujeita do que viveu” achando que tal afirmação subestima a sua dor, achando
que tal questionamento culpabiliza a vítima, como se toda ou qualquer reflexão
crítica sobre si mesma dentro de uma relação fosse um erro estratégico que age
contra o feminismo e não uma de suas maiores armas. Acabamos contraditoriamente
agindo como se a capacidade autocrítica fosse uma injustiça. Agimos como se o
machismo e o patriarcalismo das relações pertencessem somente ao homem: damos
toda a autoria, de bandeja, ao homem. Dizemos, em entrelinhas, que eles sao o
sujeito da relação, e nós somente sujeitadas. Dizemos que esperamos que reconheçam
e transformem a sua autoria. Nos sentimos lutadoras por gritarmos que eles
mudem. E nós, entre nós, seguimos prescrevendo a legítima vida e atitudes
feministas umas para as outras.
Ajudamos essas irmãs? Na prática olhamos
nosso caso pessoal com complexidade, mas a elas as aliviamos com prévias
formulações sobre sua vida, baseada em nossas leituras e trocas de narrativas
pautadas em bem e mal, certo e errado, um lado e outro e nada mais. No fundo,
cada uma de nós, no seu âmbito pessoal entende o quanto sao complexas nossas
relações para além do bem e do mal, e por isso nos ofendemos que alguém venha e
formule a questão assim, nesses termos, dizendo que somos prescritivas demais.
Ninguém se vê binariamente. Porém, não somos francas entre a prática de nossa
vida e o que consideramos que deveria ser o certo para a outra. Sem nos dar
conta, dizemos às parceiras: “o inferno sao os outros”.
De nós
todas
Seria importante vermos não só nossas
irmãs como vítimas ou autoras alienadas, no qual a situação as tornou cegas e
incapazes de reagir: para o bem e para o mal, são críticas em potencial de si
próprias e de nós, assim como somos delas. Não nos limitemos em achar que o
máximo do nosso exercício prático é partilharmos de suas dores ou de seus
discursos, sendo suas bóias de salvação. Por mais revolucionário que seja,
atirar discursos prontos em mares que não conhecemos, as vezes é o barco mais
furado para as afogarmos.
Entender que as nossas e as outras afetividades
são políticas é ir além do que olhar com desconfiança ou legitimidade para as
escolhas sexuais e afetivas de nossas irmãs, criando teorias que justifiquem o
quanto ela faz parte, como uma peça imóvel, de um sistema que perpetua
imobilidades sociais. A política não tem só dois lados, não sejamos extremistas
entre nós mesmas. Conseguir polarizar uma irmã, coloca-la em contraste diante
da falta de sororidade com a outra, ironicamente mostra que a nossa sororidade
se move mais com a proximidade que enxergamos com o nosso caso pessoal, - com aquilo que nos afetaria e nos causaria
dor e ressentimento - do que
propriamente com a criação de um espaço comum de liberdade afetiva, sexual e
financeira entre umas e outras, amenizando os desníveis sociais e econômicos e possibilitando
suas transformações. Sejamos sinceras com a medida de nossa hipocrisia
feminista.