quinta-feira, 27 de junho de 2019

Glitter no taco

Eu comecei sem saber ao certo porquê.
Mas foi o xaveco mais gostoso e bonito que eu troquei por mensagem nesses últimos tempos.
Porque tinha um quê de sinceridade...
Ele veio irresponsavelmente de cabeça, de maneira tão suave, dessas que você acha que pode ir também.. que se ele banca, você também banca... que se ele se arrisca, o risco seu é o mesmo..

Igualdade meu bem, e isso é lindo..
....
que
não.
....

E sempre se descobre o óbvio só depois...
Mesmo sabendo, pelos caminhos da experiência que já trilhou, que não há igualdade, vc defende a igualdade que ele acredita, e não a que te preserva.

Depois disso, ele quis ter certezas, porque afinal, sabe calcular a própria vida e não se arriscaria em nada que não tivesse retorno.

Abria asas, e ter me descoberto somente despertou a curiosidade de voar por aqui, já que meu peito parecia voo alto. Eu sei o quanto saltei para manter alto, esse peito avoado.

Entao vieram oportunidades: vida, trabalho, longas distancias .. bom conhecer gente nova, tanta paisagem bonita nesse mundo também...


Foi uma presença maravilhosa, fofo o tempo que pôde. Afinal, sair moralmente bem é fundamental pra voar leve.

Mas modo como ele dirigiu a conversa do fim eu senti, aqui dentro de mim, uma ponta de crueldade no tom, na escolha das palavras, no olhar.. que eu não esperava e não entendi o porquê ou praquê.

Entao resolvi ser plateia do fim, para ver até onde ele seria capaz de ir.
Foi a ultima performance que meu corpo se permitiu viver. Fazer do silêncio, experimento... da calma, experimento... da clareza, experimento.
Como Marina Abramovich, deixei as armas na mesa pra ver até aonde o outro iria, diante da minha impotência.

Ele delimitou nao valer a pena.
Facada direta na asa um.


E disse obrigado.
[Gratiluz versão sintética]
Facada direta na asa dois.


Literalmente, eu vi nos lábios dele que deixei de valer a pena. Como um investimento, desses que vc calcula a liquidez afetiva.

O obrigado foi mais ofensivo do que o "não vale a pena", e nunca conseguiria dizer porquê: ecos de outros amores.
Dores que ele desconhece, e nao porque eu nao tivesse contado, mas por ele nunca ter sentido.

Tudo isso me lembrou o quanto me sinto porto de homens maravilhosos que passam pelo meu ventre para pegar calor, abrigo e conhecimento, e depois partem achando que um muito obrigado é tudo o que podem ofertar, ou o que eu mereça ouvir.
Minimizam responsabilidades emocionais por meio da gratiluzisse deles.

Saem desastradamente, tropeçando e quebrando tudo, com a grande desculpa de que é hora de pensar em si próprios.

Como se em algum momento não pensaram.

...
Como se viver intensamente aquela paixão sem pensar no depois, não fosse pensar em si próprio.

Ou se então,

como se planejar casamento e filhos segundo seus próprios modelos, não fosse pensar em si próprio.

Como se o rico campo antropológico que fizeram ao imergirem na minha vida, não fosse pensar em si próprios.
....
Só saem.
....
Nunca deixam nada, nem se preocupam com nada.
...
Quando partem fica a casa inteira pra limpar: cacos emocionais por todos os lados, cacos que entram nos tacos igual glitter de carnaval. Brilham um brilho encardido durante anos, uma luz que é só lembrança de uma alegria passada.

A partida dói para as duas partes, pensam...
Mas não é sobre dor... é sobre carga...
Sobre os contêiners a mais que cada relação traz pra gente cuidar. Sobre navios de petróleo parados no nosso mar.

E me pergunto se a recusa deles em perceber a desigualdade óbvia nessa balança que pesa pra nós é autoboicote, incapacidade, ou só covardia mesmo.

Durante a relação, sempre acreditam entender as diferenças existentes.

Mas a cada partida que assisto,
percebo o quanto, no fundo,
eles só não querem sair de seus lugares de conforto para entender o desconforto emocional
que é ser peito
feito de mar e vôo, diante de um barco carregado de pólvora.

Um dia, eu sei, seremos tão afetivamente descoladas de suas cargas, que assistiremos a esses barcos explodindo, um a um, enquanto caminhamos de mãos dadas pela areia.

Mas até lá calmamente sorrirei a cada encontro com a mesma sinceridade que procuro sorrir para meu ventre. Cuidar não me impede de viver.
Eu gosto de glitter, só nao gosto de sofrer.

sábado, 25 de novembro de 2017

faca na bainha

Você..

Recebe do boy aquela poesia, ou xaveco furado que ele te atira dizendo 'me erra me acerta me mira,
Deixa a sua vida ser também a minha
tudo junto mistura sua veia seu seio sua pele no meu travesseiro
que tal juntarmos estradas e estragos e assim concertarmos o estrado da cama, pagarmos a fatura da net, unirmos escovas de dentes e cabelo e giletes de barba que  também cortam seus pelos.. 
que tal compartilharmos planos de saude, de vida e dinheiro? '

ah tudo isso ele diz..
Mas nao diz muitas outras coisas que, em partes nao sabe, em partes mal conhecem a parte que tem naquilo que nos parte

aquilo que de laranja inteira, nos faz meia

ele desconhece ignora ou aproveita

que os corpos tem posses
as posses tem normas
as normas tem leis
e as leis são dos homens

e mesmo que as leis lidas nao façam sentido porque ele é
hippie
boy
ou só
descontruido


ele só nao diz

que nessa ida onde a vida sua caminha de encontro a vida dele
ele a espera sentado no conforto do patriarcado

te gruda na testa uma placa onde se le incrustado:
rainha.
a escolhida mocinha.


o crush  engole, como a baleia que engoliu pinoquio,
nao só o encanto do encontro e os coraçoes de madeira,
engole o seu canto de sereia, o seu caminho na areia
te faz duvidar até do seu eu mais óbvio.

você
que sabe aquilo que te parte, que do amor nao aceita metade,
do boy nao espera verdades

caminha linda
com faca bainha
sem ser rainha
seja só assim desbocada, enfurecida, e preparada

pra nunca perder as partes  dessa vida inteira, partes que nao merecem estar guardadas


quarta-feira, 28 de junho de 2017

e chama mãe de novo

Todo novo momento de ser maaae, mae - e chama mae de novo -
eu penso ..uma só vez.
um dia só de nao sei o quê mais ser
para nao ser sempre a mae. Nao
que me importe em ser porto,
diário, de carga e descarga
da criança que nao sabe se limpar
e da que sabe também.
suando eu saio do banho apressado
acompanho a chamada, o choro a risada
me pergunto sorrindo riso chocado
é tudo só por mim? o choro é por mim?
tamanha espera
de mim?
embora sei que nao,
nem sei se terei aquele abraço. aquele pente de cabelo perdido.
aquela figurinha de chiclete largada em um canto qualquer.
 E nao sei se terei aquele almoço. Se tomarei onibus até a escola ou até o trabalho
Nao sei se será hoje a demissão previamente sentida.
Nao sei se hoje o nó acorda dando corda ao desgosto.
 Nao sei se hoje cai a conta ou a máscara.
sei que em um momento irrompe uma fresta no silencio das tormentas
dizendo
maaae minha blusa?

tudo

Antes eu achava que nem tudo dava pra ser dito.

E achando assim o nem tudo acabou virando quase tudo. 
E eu achava que nao dizia quase tudo porque para cada tudo que eu pensava, grande parte ficava parada numa poça qualquer, em algum canto da garganta.
Daí comecei a dizer uns tudo por aí. 
Um tudo aqui, outro ali.
E como guardei muitos, achei que eles deviam ser ditos do jeito que melhor mostrasse o quanto são uma parte de mim.

Afinal, o que é o todo sem o eu mesma? entao quanto mais tudos eu partilhava, mais toda de mim eu era.

E muitos tudos foram quase todos para as mesmas pessoas de sempre. Entao eu vi que tenho pelo menos duas categorias de tudo.

No primeiro grupo de tudo cabem as pessoas que ouvem os tudos que eu realmente de fato nao diria se nao fossem eles reais e queridos ouvintes de mim. Pra eles eu digo solenemente tudo. Chamarei estes de Iguais.

No segundo, que quase sempre são as mesmas pessoas ouvindo tudo de novo, um monte de tudos que eu insistia em acreditar ainda nao ter dito o suficiente. Aqui e ali sempre falta um tudo a ser dito. Para eles eu despejo tudo. Não tem nome pra essa categoria. Entao chamarei estes de Outros.

Os iguais merecem a solenidade do meu tudo. 
Os outros merecem ouvir um tudo em forma de despacho. Normalmente dizemos que não nos importamos com esses, que são os outros, mas eles nos irritam, entao estamos sempre lhes dizendo alguma coisa.

Para os primeiros tudo é empatia e amor. Para os segundos eu lacro neles tudo.



Hoje eu já acho que nem tudo serve para ser dito.

 Dizer solenemente para os iguais o mesmo tudo de novo, já nao me esconde mais o tudo que eu nao sei dizer porque não vivi.

E nem me esconde dos outros.  Os outros também falam, e insistem em me dizer - seja solenemente, seja lacradoramente de ouvidos tampados -  a enorme quantidade de tudo o que lhes vem na telha, baseado numa montanha de tudos racionais construídos entre seus iguais.

Ouvir forçadamente o seu tudo e forçar você a ouvir o meu tudo parece mostrar quanto falta do outro em mim, e eu em você, nisso que chamamos de escolha. Fingimos que é uma escolha do outro ouvir. Escolha porque falou. Escolha porque ficou. Escolha porque nos dói admitir que nossa dor é nossa e portanto por vezes individual a ponto de a dor que eu causo no outro não justificá-la. Chamamos escolha porque não vemos no outro capacidade de dor diante de nossa fala necessária, e escuta fingida.

Eu ouço bravatas chamadas solenemente de 'não aguento mais nao dizer tudo' e somente penso: com quantos tudos se mascara o interesse só na própria individualidade? 
E quantos tudos por aí que poderiam ser ditos se a escuta não fosse fingida?
Quantos deixam de ser formulados diante desse básico cuidado com o outro,  básico medo do outro.. 

Como agir diante do outro que fala autorizadamente do local que é não se ver como igual?

Aquele sapo na garganta seria mesmo o tudo que precisa ser dito ou seria parte de um ego que nao sabe se calar?  Um eu que nao entende o limite do seu nada. Um eu que se acha por demais dono de tudo. Dono daquilo que acredita? 
Dono de estudos? 
Dono de páginas de livros lida? 
Dono da verdade daquilo tudo parado na garganta?
Todos nós donos, em posse da fé de que o que sabemos é nosso, o que vivemos é nosso, e quem tem que nos ouvir é os outros.
Nao escrevo em defesa da nao fala. Em favor de que uns tudos aí caiam amargos em longos silêncios e espera. Nem poderia, se quisesse.

Escrevo pela falta de voz que é ouvir em silêncio sofrimentos causados por um eu que se acha tudo e insiste que só há o outro como culpa ou escuta.
Quando o outro é um nada a ser ouvido em meio de seu tudo, o seu tudo não tem no outro o seu maior problema.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

As várias faces de nossa prática

Das relações

Talvez até entendemos que a complexidade das relações afetivas são atravessadas por relações de poder, as quais é importante conhecermos as suas formas e táticas.
Também entendemos que quando descrevemos e narramos o que nos passou, estamos dando forma e discursos sobre essas estratégias de poder ao qual tentamos escapar. Ou seja, resistimos e, para resistir, precisamos nomear e entender aquilo contra o qual resistimos. Como consequência, acabamos também construindo discursos sobre nós mesmo que antes não havia. Daí acreditamos que nós somos a resistência já que estamos construindo outras possibilidades.
Sim, molieres, somos “a resistência”. Nessa sociedade, ao menos. Mas, o que estamos criando é somente resistência?      
 Por vezes, em nossos próprios discursos que se propõem a resistir e encontrar novas possibilidades às mulheres - principalmente às negras que necessitam de uma dupla resistência - não estaríamos reafirmando as táticas e estratégias de poder que estamos combatendo?
Em outras palavras, nós, que já somos mulheres “feministas”, críticas, pesquisadoras, não estamos reafirmando discursos patriarcais sob a pele da sororidade que nos permite, em nossos coletivos e pequenos grupos, silenciar outras mulheres também críticas e pesquisadoras? Fogo amigo? O quanto as ouvimos a partir do momento que não as consideramos emancipadas o suficiente? Lacradoras o suficiente?
Embora a medida e régua da suficiência não esteja dada, não conseguiríamos nós nos autocriticar e enxergar que nossas escolhas, nossos grupos, nossas exclusões se dão por uma silenciosa medida da suficiência?
Nossa militância por vezes esconde as mesmas táticas prescritivas para a vida de nossas irmãs quanto o patriarcado para homens e mulheres: em nossa prática, abordamos o feminismo e o não-feminismo das companheiras a partir das relações interpessoais que essas mulheres estabelecem. Enfim, é o que temos. Quem é você em meio ao caos? e assim pedimos as identidades. Curtimos mil vezes seus posts lacradores como a própria voz da resistência ecoando em frente ao espelho. E para as outras nos damos ao direito de por na balança as gramas das práticas e discursos alheios para saber: é feminista ou não essa mina dita feminista?
E não quero simplesmente problematizar se é certo ou não essa necessidade de medir. Acredito ser mais interessante analisar as consequências positivas e negativas disto para uma luta pautada em novas subjetividades para nós, mulheres. Até onde conseguimos caminhar com nossas réguas? Em que momento ela nos fortalece e em que momento expõe nossas mazelas?
Corremos o risco, implícito, de nos limitar. Vamos pensar, por exemplo, que não há nesse texto nada de útil. Afinal, neste momento de poucas conquistas e muitas perdas, apontar falta de estratégias - tanto coletivas quanto individuais - nessas que são a linha de frente das vozes nas redes sociais, nessas que estão em nossas páginas no face, nos relatos fervorosos de nossas irmãs, nos encontros em que podemos ser amigas por aquilo que temos de comum em nossa resistência, nos nossos textos e palestras, nos nossos saraus e peças realmente parece um desserviço. Considerando que temos essas páginas, peças, saraus, pessoas e afins constantemente atacadas, considerando que esses espaços são constantemente cerceados, não seria esse o momento propício, para nos voltarmos a uma autocrítica? Esse momento em que somos resistência àquilo que nos molda, a esse cerceamento externo e conservador, não seria também o momento para reconhecermos as limitações internas que fazemos à nossa liberdade de recriarmos constantemente a nossa identidade? Não temos o caldo para repensarmos aquilo que queremos e o modo como criamos esse querer?
Pensar o quanto nossa prática pode reafirmar o que queremos romper também contribui para as demandas básicas e gritantes, como a manutenção dos direitos básicos. A crítica a si também é necessária à luta por uma subjetividade que rompa com as formas afetivas destinadas a mulher. Aqui é o que me interessa, porque é onde mora o risco da prescrição: não só reformulamos a nós mesmas com as narrativas e experiências umas das outras, como, neste processo, visando nos ajudar mutuamente, apontamos para nossas irmãs a perpetuação de certos discursos e práticas que tem efeitos machistas.
Sem dúvida, apontar é necessário. Porém, a construção desse apontamento para a outra, o modo como isso será realizado, também é parte tanto do processo final dessa luta, quanto o meio pelo qual faremos tal luta. E daí a autocrítica necessária de nossas formas. Daí onde mais vejo o silencioso olhar buscando medir a suficiência ou não do feminismo alheio. Aqui onde colamos as identidades que viram nossas referências e as que escolhemos negar em todos os aspectos. Aqui que não entendemos que não precisamos assumir atitudes prescritivas para sermos feministas.
Aqui onde não dizemos isso a nossas “personalidades” feministas de referência. Aqui onde dizer muito ou não dizer nunca nada compromete como olharão a nossa régua feminista. A tal subjetividade acima mencionada, mesmo se for conquistada, não é um fim em si mesma, senão um processo constante. Pensemos o quão político e dotado de relações de poder também são os dedos que apontamos a nossas irmãs.

Do levante à desculpa

Indo mais além, vamos pensar um pouco sobre o nosso discurso sobre nós mesmas quando estamos no fundo do poço. Nós que nos vemos feministas. O feminismo está aí nesse momento, te possibilitando entender que você é composta por muitas estruturas sociais, inclusive estas estruturas compõem o que sente e a maneira como sente. O feminismo ajuda-nos a atenuar ou mesmo abolir nossa sensação de culpa: culpa na maternidade, culpa na sociedade, culpa na violência, culpa por não sermos estéticas ou femininas o suficientes, enfim, culpas para a mulher há infinitas.
Em um outro extremo, o feminismo não é um conceito-chave para justificarmos a nós mesmas a impossibilidade de sermos autoras, a incapacidade de reformular a si mesmas e a inércia do nosso corpo dentro das estruturas que, emancipadamente, reconhecemos e nela atuamos. Isso não é dizer que temos de nos tornar heroínas, e sim que, a partir do momento em que optamos em seguir vivendo, não o façamos por mera obrigação com os filhos, ou com a sociedade. O feminismo - e todas suas intersecções - é uma ferramenta que nos permite pensar quais as formas de resistência possíveis para a nossa vida. Afinal, somos feministas para transformar. Senão ainda esse mundo, talvez a nós mesmas, juntamente com nossas parceiras e parceiros.
Por vezes nem notamos, mas anulamos a nossa possibilidade de ser autoras em nossas relações afetivas – sejam as atuais ou as ex relações que, por algum pacto social ainda temos que manter -. Anulamos e reconhecemos o machismo como culpado, sem nos darmos conta de que ao esterilizarmos nossa ação somos machistas também. Claro que nossa autoria perpassa resistências e transgressões que, por vezes, não conseguimos transpor, mas as estratégias de transposição não deixam de ser resistência.
Não somos dois lados da mesma moeda: um lado autora da própria vida, outro não; um lado que tem carteirinha com a verdade feminista; outro errando porque filosofa demais e acaba relativizando tudo. Somos um punhado de experiências que nem sempre estabelecem uma narrativa uniforme que vai de vítima a vítima, de vítima a heroína, de heroína a vítima, de parceira de luta a vilã ou outras combinações. Dentro do mesmo acontecimento, por vezes somos também a autora, a violência, a consequência, o estrago, a dor e o reconhecimento de que algo precisa ser transformado. O feminismo não surgiu para anular nossas práticas, torna-las estéreis e protegidas sobre uma película - confortável e desconfortável ao mesmo tempo – do discurso.
E aqui, por favor, sejamos críticas e não hipócritas. Falo a nós, que fazemos a crítica, diante da nossa prática entre nós mesmas e para nós mesmas. O feminismo nos torna autoras, a ponto inclusive de nos permitir enxergar a estrutura do qual fazemos parte, e possibilitar certas resistências dentro do patriarcado que, a longo e a curto prazo, depende muito mais da nossa capacidade articulativa do que o bom senso masculino de reconhecer seus erros.

Da diferença entre nós x a outra

Fazemos um duplo movimento reconfortante em nossa “militância amiga”: identificamos quem são as outras  - as que não estão com a gente - porque isso ajuda a identificar o quanto parceiras somos nós entre nós. E mantemos a discussão no nível das mancadas alheias, protegendo assim a capacidade de reconhecer que também erramos. Somos violentadas e violentas. E a nossa violência se volta mil vezes mais contra nós mesmas, a ponto de nos cegar que um dia o fomos ou ainda o somos, que temos parte nisso tudo, incluindo o machismo. Anulamos e infantilizamos a autoria das nossas irmãs enquanto contraditoriamente vemos as “outras” como autoras, cuja justificativa ou é egoísmo ou ignorância desmedidas.
De nós para nós: por vezes estamos entre nossos pares e, para ajudar, analisamos suas vidas afetivas. Conhecemos e partimos, por vezes, de um conjunto de premissas anteriores ao contexto que elas nos trazem. Ou seja, transformamos o acontecimento afetivo, (seja ele um casamento, um namoro, uma ficada, um fim ou começo de um) em um conjunto de frases que podem ou não ser encaixadas aqui e ali. Enquadramos a história e relação afetiva de nossas irmãs para conseguir entender e então, opinar. Partimos dessas formulações para escolher se a julgaremos, enquadraremos, apoiaremos ou criticaremos. Sob o aval e a boa pele da sororidade com umas, e apredrejamento silencioso (não assumido embora pensado), de outras. E sem nos darmos conta, aí mora a persistência e continuidade silenciosa, escondida sob a pele da militância, de formas nas quais nós lutamos tanto por combater.
Reconhecer a violência das relações afetivas para as mulheres como um todo e para cada caso individual também é um processo no qual estamos aprendendo a lidar. Em meio a isso, não nos tornemos meramente aquelas a dizer para as nossas companheiras o que elas devem esperar ou fazer com determinadas relações afetivas. Nem o que elas são dentro dessas relações, ou na vida. Nem sempre tudo se resume ao nosso discurso catalogador e prescritivo, nem sempre nossa ouvinte ou falante é somente somente autora ou somente vítima. Ser autora não a faz menor em nossa causa feminista. Nem a apedrejada pelo nosso senso moral é menos vítima e mais autora. A subjetividade de sua irmã que ouve o conselho, nem sempre se constitui somente de uma peça sem forma dentro de uma relação afetiva. Não partamos nós mesmas do pensamento simplista, binário, que as reformula e formula seus parceiros como constituintes somente de um bem a mulher, ou um mal a ela. Nem nós somos só o bem a nossa causa, nem só mal a nossas irmãs. Nem esse texto é uma nova prescrição do bem.
Entender a complexidade das autorias enriquece e muito a nossa possibilidade de ajuda. Criticar companheiras entendendo a complexidade das relações ajuda muito a não apontarmos dedos exigindo respostas prontas utilizadas em outras situações. A compreensão dá espaço a criatividade em nossas formas de resistência. E de fato, precisamos mais disso.
Entre nós, heterossexuais, lidamos com uma complexidade de situações diárias nos quais nossos próprios gritos de guerra, aqueles que lançamos às outras, são relevados em nossos próprios contextos pessoais. Dizemos machistas não passarão, mas fincamos relacionamentos em que investimos em transformar o machismo de nossos parceiros. O que queremos dizer realmente quando utilizamos esse termo? Seria deixa-los ficar em vez de passar, a nossa maior contribuição à nossa luta? Quando não passam, ficariam aonde, neste caso? Sabemos de fato como daremos conta desse lugar no qual ficarão? Ou pretendemos levantar um muro para nos afastarmos desse tal lugar de onde eles não passarão? Levantamos a guarda dos “machistas não passarão” antes de sabermos onde fica o não passar e o quanto ainda estaremos implicadas nisto, caso eles não passem.
Conseguimos apontar com exatidão a violência do parceiro alheio e a do próprio ex, inclusive considerando certas irmãs “passadoras de pano pra macho”. Mas no dia a dia passamos por situações em que passamos o pano para nós mesmas em nossas cansativas compreensões de nossos próprios parceiros e amigos. Eles não só passam, como passam com a gente, todos os dias.
Não sabemos se militamos para matar aos homens e assim acabar o problema pela raíz, ou se aceitamos que o feminismo não é encampar uma guerra intolerante - no sentido de não mais tolerarmos mais a existência da masculinidade tal qual a conhecemos.
Se matarmos aos machistas e algum homem ainda sobreviver, nunca saberemos se sua sobrevivência é por medo ou por adequação ao discurso vigente, se são mesmo críticos ao machismo. Nesse momento, escolheríamos se queremos mesmo transformá-los ou se viveremos em paz, aceitando que pelo menos estão quietinhos no canto. Ou ainda, seria possível viver em paz sem de fato transformá-los?
Se agimos calmamente corremos o risco de afrouxar conquistas e relativizar atitudes. De fato, tem uma berlinda que no nosso dia a dia se delineia.
Muitas de nós, de acordo com o contexto social e com as relações de poder com nossos irmãos, primos, tios, pais, parceiros e ex, chefes, e etc. achamos mais estratégico atuar discretamente, quase sorrateiramente.
Porém, a nossa confusa régua mesmo assim nos permite dizer que algumas são contraditoriamente feministas, por estarem com este ou aquele parceiro, não serem mais efusivas com este ou aquele amigo. Não conhecemos todo o vasto de complexidade das estratégias alheias em lidar com o machismo, e nem do nosso damos conta. Não conhecemos as intersecções sociais e suas formas de resistência ao machismo, porque mal entendemos outras realidades econômicas.
 Por outro lado, mal conseguimos descolar a imagem de amante privilegiada, egoísta, egocêntrica, incapaz de reflexão crítica ou pobre coitada, que fazemos daquelas que são “as outras”. Não vemos como parte da premissa avassaladora que, assim como não sabemos olhar nosso próprio lugar de práticas e discursos, não vemos as práticas das outras como exercício de suas escolhas feministas. Aqui, cuidado com a régua da medida feminista: nos parece tão absurdo e injusto que um homem zoado, de acordo com nossos parâmetros, fique com uma mulher incrível.  Como se existisse um lugar social tranquilo e distante que prive nossas incríveis mulheres de serem afetadas pelo machismo, ficando com homens livres da contaminação de focos machistas. Porque afinal, não conseguimos entender que ser incrível e estar com um homem proposto a desconstrução de si, não significa compactuar com os acontecimentos machistas entre ele e suas amigas, ele e suas mães, ele e suas irmãs, eles e seu passado? Não significa ser trouxa, ingênua, oportunista ou indiferente? Podemos ser mais feministas exercendo o feminismo com eles do que isoladas em nossa bolha de iguais, acreditando numa pureza de ideias e de práticas que não se mesclem.
E diante desse caos problemático dessas relações entre nossas irmãs e os homens de suas narrativas, nos atemos mais em passar sabão moral sobre “as outras” envolvidas nestas histórias: ah, a mãe dele, ah a ex, ah a atual dele, ah a amante... Somos tao feministas que ainda inserimos frases benevolentes como “ela não sabe de nada”, “ela não conhece ele”,  “ela não é feminista” “ela não entende o feminismo”, ou outras tantas que retiram totalmente a complexidade envolvida nessa história e a capacidade autoral dessas mulheres. Generalizando e minimizando suas capacidades cognitivas, damos fáceis explicações para os fenômenos de suas vidas: associamos a elas conforto econômico – não perdemos a oportunidade de fazer piada com seus parceiros sexuais, assim como de sua situação econômica diante da do parceiro -, acreditamos em suas futilidades ou achamos que exercem as mais carentes das carências.
Embora óbvio quando se trata de nós mesmas, não entendemos que uma relação entre mulher feminista e um homem não significa pacto e concordância entre ela e as atitudes machistas desse homem. Não necessariamente significa que essa mulher é um ser inerte submetida ao poder discursivo e alienante do homem. Não significa que ela relativiza a dor da outra, a que passou por esse homem. Não as vemos como autoras fundamentais nas formas de resistências ao machismo, combate ao machismo, construção de novas subjetividades então impensáveis, já que estão na linha de frente. 
E principalmente, não significa que a principal resistência de uma mulher realmente feminista em seus relacionamentos é seguir perpetuando a figura heroica dos romances do século passado: em prol da causa, ela deveria anular sua sexualidade e escolhas afetivas. A releitura da velha visão de que uma mulher realmente feminista (ou nos antigos moldes, feminina), não coloca à frente sua afetividade e sexualidade, como se isso a uma mulher representasse egoísmo. E somos tão noviças em nossas ideias com a mulher que não pertence ao nosso círculo quanto as achamos submissas por não terminarem seus relacionamentos em prol do que ouvimos ou sabemos.
O espírito do bom colonizador, quando muito, ainda vê com pena as mulheres que não seguem nossos pactos, muito mais moralistas que éticos.
Essa realidade precisa ser lida de modo mais complexo porque inclusive, eu e você, ambas heterossexuais, estamos nisso envolvidas do útero ao fio de cabelo.


Da (falta de) responsabilidade entre nosso discurso público e prática pessoais

Para proteger os discursos das irmãs que queremos acolher, por vezes perdemos a oportunidade de levantarmos juntos, mostrando que também somos feitas de incertezas e podemos ambas estar perdidas. Em alguns casos, as vítimas nossas irmãs que nos procuram são recebidas muito bem, e sentimos a sua dor, partilhando também de suas raivas, como se empatia com a dor e a luta por absorver a raiva alheia fossem sinônimas. Por vezes nos achamos corajosas e sabemos dizer a elas – como se fosse incrível conseguir fazer isso - que estão ainda sendo trouxas e tontas, de que ela precisa se libertar disso, de que esse certo isso presente no discurso dela pode contar sim com a sua ajuda, caso ela encampe uma guerra. Não entendemos o quanto é empoderador faze-la pensar naquilo que ela pode dar conta: ou seja, aquilo no qual ela é sujeita e poderosa para transformar. Achamos que nossa sororidade é sinônimo de complacencia – embora às “outras” somente dedicamos o olhar e apontamos o dedo crítico, já que da sua história não compartilhamos -. Agimos como se após o momento do abraço não pudéssemos pensar criativamente e criticamente como forma de ajuda.
Nossa ajuda por vezes se abstem - no momento certo, posterior a dor - de criticar racionalmente a relação construída por dois, nossa ajuda não consegue dizer para a irmã, “sim, você também foi sujeita do que viveu” achando que tal afirmação subestima a sua dor, achando que tal questionamento culpabiliza a vítima, como se toda ou qualquer reflexão crítica sobre si mesma dentro de uma relação fosse um erro estratégico que age contra o feminismo e não uma de suas maiores armas. Acabamos contraditoriamente agindo como se a capacidade autocrítica fosse uma injustiça. Agimos como se o machismo e o patriarcalismo das relações pertencessem somente ao homem: damos toda a autoria, de bandeja, ao homem. Dizemos, em entrelinhas, que eles sao o sujeito da relação, e nós somente sujeitadas. Dizemos que esperamos que reconheçam e transformem a sua autoria. Nos sentimos lutadoras por gritarmos que eles mudem. E nós, entre nós, seguimos prescrevendo a legítima vida e atitudes feministas umas para as outras.
Ajudamos essas irmãs? Na prática olhamos nosso caso pessoal com complexidade, mas a elas as aliviamos com prévias formulações sobre sua vida, baseada em nossas leituras e trocas de narrativas pautadas em bem e mal, certo e errado, um lado e outro e nada mais. No fundo, cada uma de nós, no seu âmbito pessoal entende o quanto sao complexas nossas relações para além do bem e do mal, e por isso nos ofendemos que alguém venha e formule a questão assim, nesses termos, dizendo que somos prescritivas demais. Ninguém se vê binariamente. Porém, não somos francas entre a prática de nossa vida e o que consideramos que deveria ser o certo para a outra. Sem nos dar conta, dizemos às parceiras: “o inferno sao os outros”.

De nós todas

Seria importante vermos não só nossas irmãs como vítimas ou autoras alienadas, no qual a situação as tornou cegas e incapazes de reagir: para o bem e para o mal, são críticas em potencial de si próprias e de nós, assim como somos delas. Não nos limitemos em achar que o máximo do nosso exercício prático é partilharmos de suas dores ou de seus discursos, sendo suas bóias de salvação. Por mais revolucionário que seja, atirar discursos prontos em mares que não conhecemos, as vezes é o barco mais furado para as afogarmos.

Entender que as nossas e as outras afetividades são políticas é ir além do que olhar com desconfiança ou legitimidade para as escolhas sexuais e afetivas de nossas irmãs, criando teorias que justifiquem o quanto ela faz parte, como uma peça imóvel, de um sistema que perpetua imobilidades sociais. A política não tem só dois lados, não sejamos extremistas entre nós mesmas. Conseguir polarizar uma irmã, coloca-la em contraste diante da falta de sororidade com a outra, ironicamente mostra que a nossa sororidade se move mais com a proximidade que enxergamos com o nosso caso pessoal,  - com aquilo que nos afetaria e nos causaria dor e ressentimento  - do que propriamente com a criação de um espaço comum de liberdade afetiva, sexual e financeira entre umas e outras, amenizando os desníveis sociais e econômicos e possibilitando suas transformações. Sejamos sinceras com a medida de nossa hipocrisia feminista.