quinta-feira, 6 de abril de 2017

preconceito seletivo #Cena 12


Levei minha filha, já com 12 anos, numa biblioteca da USP comigo. 
Aquela coisa de querer que seu filho te veja e assim estude também. Chegando lá ela ocupou uma mesa de estudos com seus livros e cadernos e ficou, escrevendo e marcando, toda realizada, seu roteiro de estudos. Chamei ela para sair comigo. Saímos pela porta da biblioteca depois de guardarmos no armário o computador. Saímos com a chave do guarda volumes na mao, de boas, pra comer algo e voltar. Mas aí a gente saiu com um HD na mao. Pedi pra ela voltar e guardar no armário junto com o computador, enquanto buscava o remédio. E eis que quando eu volto ela está na porta da biblioteca, imóvel, me chamando com aquela cara de vergonha disfarçada, que eu já conheço. Imaginei que a pessoa da biblioteca falou que nao poderia ter saído com a chave, e como ela tem uma vergonha desmedida sempre que um adulto desconhecido chama sua atenção, pensei que era só eu ir lá explicar, qualquer coisa a gente sairia depois. Voltei falando ‘oi, é que saímos para buscar o remédio e guardamos o computador, mas o resto ta lá na mesa’.
Ele nem ouviu, disse que o que ela fez (assim bem grosso) era errado, que ele nao é obrigado a cuidar de armário enquanto a pessoa sai, e coisas assim,. Nao entendi porque o problema nem era o armário, foi ela ter ficado na porta com cara de taxo me esperando, e isso de certa forma, o ofendeu. Falei ok, mas ela nao deixou aberto, só foi me chamar pq vc falou que nao podia mais usar, ela nao sabia o que fazer afinal e foi me chamar, vc viu ela me chamando... e ele ignorou e mudou pra outro foco: com tom de ironia e grosseiro, passou a desdenhar dizendo que eu nao cumpro regras e ele cumpre e que por favor, quer sair, leve tudo ..tá incomodada, fale com a direção - mesmo eu nao tendo dito nada. E nem tinha muito o que eu falar já que estava errada né, por mais que todo mundo fizesse isso. Mas eu me senti humilhada na frente dela, ficou implícito que eu não sou capaz de dar bom exemplo, afinal olha ela ali fazendo tudo errado. Resolvi nao responder a grosseria, nem fazer nada, depois eu explicaria a ela que tem gente que nao gosta de criança e trata elas assim mesmo. Pedi para que ela fosse buscar o material na mesa pra gente ir embora. Aquele minuto de silencio que dá vontade de chorar enquanto o funcionário segue satisfeito: missão cumprida.
Eu ja ia embora conformada e eis que, nesse momento, entra um aluno usp, branco, sacudindo uma chave do armário na mao, uma chave que saiu para dar uma volta com ele sabe-se lá quando, de um armário que nao tinha nada guardado dentro, quando ele abriu. Ele levou a chave só para garantir que o armário estaria lá qdo precisasse. Ali na nossa frente, e na frente do funcionário, guardou suas coisas no ‘seu’ armário.
Para a minha surpresa, aquele funcionário defensor das chaves dos armários nao o viu, embora de relance o tenha olhado. E era um momento ápice para a defesa das regras das chaves e de sabe-se de mais o que, era um momento em que ele seguia atento na direção dos armários porque eu ainda estava ali e ele ainda estava nervoso com esses usuários sem regras. Mas ele nao seguiu o rapaz com os olhos como seguiu a menina. Parece desmedido seguir a todos esperando uma infração. Mas sabemos, a medida tem rosto e a regra tem seleção. Aquele rapaz nao tinha cara de infrator de regras. Acho que uma pessoa branca com cara e camiseta de aluno usp nao gera indignação o suficiente a ponto de vc se sentir obrigado a levantar os olhos do computador e assistir seus atos esperando acontecer algo emocionante, do tipo ele estar com um chave de armário. Sendo insustentável esperar infração de todos, então os mais óbvios sao seguidos e, coincidentemente, os óbvios tem sempre o mesmo aspecto físico.
Eu já tinha pensado que as razões internas daquele funcionário de ser irônico e grosseiro comigo e com a minha filha nao tinham a ver com o armário. Ninguém precisa subir em cima da autoridade para explicar o óbvio e, apriori, falando baixo já seria possível de entender o recadp. Mas foi um discurso fervoroso e indignado de ver uma menina sem nada de cara usp passar e usar o armário como se fosse assim, natural, como se ela pudesse também se igualar aos demais. Como se o ambiente fosse dela também. Ela nao tem cara de filho de funcionário, nem camiseta da escola da usp: além de criança, é criança estrangeira ao espaço... e não é branca. Sabe como as pessoas olham criança de rua quando ela entra num restaurante? E aí por falta do que falar, indignadas pedem pra sair, porque assim diz as regras?
Fui até ele e disse, ‘estamos saindo, mas vc nao viu o rapaz passando com a chave na mao? ‘, Ele respondeu alterado que nao tem como ver todo mundo. Concordei, porque isso é verdade. Afinal, a gente só levanta o olho do computador quando quer, que a gente elege quem deve ou nao ser olhado, tanto no ônibus quanto na rua e que, alguém com cara de aluno USP branco nao parecia necessariamente alguém com quem ele devesse levantar os olhos e seguir seus passos, melhor então escolher alguns. Nesse momento de nervoso ele passou a ficar espantado dizendo, você esta me acusando disso? Enfim, nem lembro se ele conseguiu chegar perto da palavra preconceito, mas racismo, ahh, isso passou longe. É que as pessoas pensam que racismo é ku kux klan, queimar negro vivo, coisas assim, televisivas e de gente má, feitas com alguém beem negro (sabe-se lá qual seja a régua para medir negritude que o nosso racismo diário usa). Pardos, da cor da minha filha nao é preconceito não... mas bem que ela podia nao estar ali, fazendo igual fazem os alunos, afinal, uma hora a coisa desanda e já pensou um monte de gente igual a ela fazendo isso, usando armários públicos com toda essa liberdade? Poucas pessoas entendem o racismo como a indignação com o uso de espaços públicos por pessoas fazendo exatamente o que as outras fazem, com a diferença que nao tem cara de aluno usp, de classe média alta, cara de que é bonitinho estar ali porque foi merecido. Assim é nos aeroportos quando as pessoas fazem piadas com a presença de pobres, assim é nos shoppings qdo alguém deixa de ser atendido, assim os seguranças seguem as pessoas no mercado, assim é nas bibliotecas da USP. E como em todos esses lugares, as pessoas se escondem atrás de regras explícitas ou implícitas para justificar a ironia e grosseria que, sem perceberem, só aplicam a um determinado publico. Uma vez, num prédio que a gente tinha acabado de mudar, um porteiro viu minha filha tentando lembrar a senha do portão e gritou ‘sai daí menina dos infernos’, e qdo ela conseguiu abrir ele percebeu que nao era criança de rua, e sim moradora. Ele me pediu desculpas dias depois, porque viu que eu agi diferente com ele, afinal, olhou de relance e teve certeza de que nao era morador. Claro, como se essa tal olhada de relance não carregasse nenhum valor moral. Nessa época minha filha ficou com medo de retaliação e pediu pra que eu nao conversasse com o porteiro. Agora, com ela maior, tudo que poderia falar naquele momento, dentro da biblioteca, eu falei . Ela vai passar por isso outras vezes na vida, e tem que entender que nao é ela que tem que ter medo de retaliação.
O defensor seletivo dos armários tentou se livrar de me ouvir, me mandando ir à chefe, já que eu nao queria cumprir as regras, ah, ainda esse papo de que foi as regras. Assim como todos, a atitude seletiva e a grosseria desmedida passam por uma capa mágica de invisibilidade: a pessoa sofre uma perda de memória seletiva e fica indignada que vc aponte descaradamente o que ela nao consegue ver, e pra sair dessa saia justa, cada um justifica como pode. Enfim.
Falei, embora nao fosse ouvida, e saí. Fomos para outra biblioteca, uma que tinha uns filhos de funcionários esperando a hora da escola, como na maior parte das bibliotecas da USP. Ali esses filhos fazem tudo o que se a minha filha tivesse feito ali na ECA teria sido humilhada: usavam o computador, deixavam a bolsa do lado de fora do armário, transitavam e liam e, ainda assim, a biblioteca continuava a vida normalmente. Tem espaços assim, que entendem que a regra pode conviver com a formação da infância alheia, sem humilhação. Que os pais que usam a biblioteca podem ensinar seus filhos a usarem aquele espaço de maneira saudável, que a regra as vezes é insustentável e dependendo do caso é melhor deixar passar porque nao vale a pena atrasar a vida de ninguém. Porém, é só porque são filhos de funcionários, não tenho ilusão nenhuma de que sejam espaços democráticos. A hipocrisia das regras segue servindo aos nossos preconceitos e se diluindo de acordo com as necessidades de quem manda.

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