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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Pastelão

Olhando de fora, o amor é ridículo. um pastelão colorido. um chapéu de palhaço. um tombo na frente do publico.
É sonhar que está pelado na escola. acreditar no beijo, no amasso e no abraço como a ração diária necessária à sobrevivência.

O amor é tão ridículo que a política não sabe onde guardá-lo. A universidade não sabe como abri-lo. O peito não sabe como tirá-lo.

O amor é tão patético que chega a vender kilos de manteiga por ano na porta dos cinemas.

O amor é assim tão humano, que a gente chora quando lê, quando assiste e quando sonha.
Só que na vida real - essa aí  do chinelo ao lado da cama, do leite derramado na geladeira, do moleton furado na bunda -  a gente se desespera:
ou foge dele quando o vive. ou passa uma vida fingindo que o conhece. Ou força a barra para que ele permaneça, quando na verdade, já foi.

Daí os casamentos fajutos, relacionamentos de plásticos, e os eternos solitários. Todos olhando feio um pro outro. E todos no mesmo barco.

O amor é tão assim sei lá...que na verdade ele nem existir existe. Uns tem certeza que é invenção burguesa. Outros o repetem tanto como um mantra alternativo que, diante dessa energia que eles mesmos convocam, ficam paralisados.
A maior parte o busca com lupa, esperando ser por ele atingido como um raio.
E por eles o amor cruza todos os dias, por todos os lados onde a lente não chega.

E eu.... eu não quero render o amor, dizendo que ele faz isso ou aquilo.
Também não vou salvá-lo.
Nem quero retê-lo.
E muito menos, guardá-lo.

Que ele continue por aí ridículo, solto, destrambelhado e desastrado. Para só as pessoas realmente sem noção se aproximarem dele. Só quem não tenha medo de receber um sem nome de piadas e cem cara de risadas, que dele se aproxime.

Que o seu ridículo irracional e patético continue não cabendo no jeito, no certo, na forma. E que cada vez que essa vergonha ganhe o nome de amor por alguém que ame -  naquele minuto de lucidez, em que se tenta entender a si próprio - que o amor saia correndo pela porta dos fundos como um bandido que perdeu a touca.

O que ele tem de belo é a beleza de ser aquilo que ninguém sabe, todo mundo deseja e poucos quando cruzam com ele, se permitem viver.

Ai o amor... assim pelado fica tão indecente.... tão vergonhoso.. e tão gostoso...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Bogotá

Eu lembro do cheiro e do gosto daquelas manhãs em Bogotá. Da calma e do silêncio em que eu habitava. E da clausura em que eu guardava a vontade de estar amando, não só o contexto, mas o que ligava aquela pessoa a mim. 
Eu chorei de deixar algumas lágrimas correrem em silêncio. Lágrimas tão invisíveis como as de um bicho que chora preso. Lágrimas sem nome social. Lágrimas de silêncio.
Eu sinto falta de ser sua amante. Porque naqueles dias fui a melhor amante do que ja havia sido em toda a minha vida. Eu tinha clara a intensão de dar o melhor de mim. Eu quis isso. Até hoje, não quis de novo como quis aqueles dias em Bogotá. Eu lembro da janela enorme no quarto, do silencio da quadra, do frio que espreitava lá fora... Eu lembro da curva da cama, do corpo ao lado, da leveza do lençol, do peso da minha memória dolorida que ainda carregava um outro corpo.
Lembro da lembrança desse corpo fantasma, corpo esvaziado de sentido mas que ainda me doía. Eu lembro de tudo o que aquelas manhãs o corpo ao meu lado, e sua leveza, e seu cheiro de cigarro e café, fez para que eu esquecesse o corpo que vinha na memória. E ele nem sabia disso. Ele não sabe o quanto especial foi pra mim. Eu agradeço cada manhã, cada pãozinho meia lua com manteiga. Cada mirada pela janela, cada gole de café.
Eu lembro que não tinha pressa. Que queria os dias durando muito. E acabavam. Três vezes de dez dias... os dias sempre acabavam. E pra chegar até ali eram longas esperas em que o tempo corria, só para esses dez dias de câmera lenta, câmera fria.. e cama acalentada.

Aquelas manhãs tão bonitas, como podem nunca mais voltar? Bogotá.. Bogotá...