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sexta-feira, 1 de abril de 2016

Bogotá

Eu lembro do cheiro e do gosto daquelas manhãs em Bogotá. Da calma e do silêncio em que eu habitava. E da clausura em que eu guardava a vontade de estar amando, não só o contexto, mas o que ligava aquela pessoa a mim. 
Eu chorei de deixar algumas lágrimas correrem em silêncio. Lágrimas tão invisíveis como as de um bicho que chora preso. Lágrimas sem nome social. Lágrimas de silêncio.
Eu sinto falta de ser sua amante. Porque naqueles dias fui a melhor amante do que ja havia sido em toda a minha vida. Eu tinha clara a intensão de dar o melhor de mim. Eu quis isso. Até hoje, não quis de novo como quis aqueles dias em Bogotá. Eu lembro da janela enorme no quarto, do silencio da quadra, do frio que espreitava lá fora... Eu lembro da curva da cama, do corpo ao lado, da leveza do lençol, do peso da minha memória dolorida que ainda carregava um outro corpo.
Lembro da lembrança desse corpo fantasma, corpo esvaziado de sentido mas que ainda me doía. Eu lembro de tudo o que aquelas manhãs o corpo ao meu lado, e sua leveza, e seu cheiro de cigarro e café, fez para que eu esquecesse o corpo que vinha na memória. E ele nem sabia disso. Ele não sabe o quanto especial foi pra mim. Eu agradeço cada manhã, cada pãozinho meia lua com manteiga. Cada mirada pela janela, cada gole de café.
Eu lembro que não tinha pressa. Que queria os dias durando muito. E acabavam. Três vezes de dez dias... os dias sempre acabavam. E pra chegar até ali eram longas esperas em que o tempo corria, só para esses dez dias de câmera lenta, câmera fria.. e cama acalentada.

Aquelas manhãs tão bonitas, como podem nunca mais voltar? Bogotá.. Bogotá...